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MUITO se fala sobre tecnologia, sobre como ela pode ser aliada de nós, pessoas eternamente sem tempo. Também há os humaninhos que adoram conspirar que os aparelhos de celular dão câncer e que email e sites de relacionamento só colaboram para afastar o ser humano de seus semelhantes, e não para uni-los, como previa a proposta inicial.
Às vezes eu odeio celular. Para uma pessoa de humor inconstante, somente o ato de olhar um nome que chama na telinha pode acabar com o dia. Ai, exagerei. Acho que não é o nome em si que pode irritar profundamente, mas o toque do celular, não importa qual seja a musiquinha escolhida. Enfim, há dias e dias e aqueles dias que você simplesmente NÃO QUER FALAR NO TELEFONE. Diriam os simplistas: ‘ora, desligue o celular’. Os não-simplistas hão de concordar que isso é impossível, porque a gente acha que vai receber um telefonema, de número não-identificado, que vai mudar a nossa vida. Então cabe deixar o telefone ligado, ao alcance, e ficar torcendo para ele não tocar. Relação contraditória, mas esse texto vem falar mesmo de contradição. Emails, scraps e mensagens virtuais em geral, por sua vez, irritam menos – a não ser spams, correntes, e algumas divulgações -, porque podemos reagir a eles dentro do próprio ritmo, não é alguém esperando uma reação imediata. Sobre eles, apenas tenho a dizer que viciam.
Pois bem: aqui vim falar de outra função que a tecnologia pode ter, uma função que pode salvar seus fins de semana, suas noites de sono e sua consciência quando você tiver simplesmente que dizer ‘não’ e não sabe como.
Situação 1: amigo (a) ligando para chamar para um programa que você já sabe o que é, e não está nem um pouco afim de ir. Acontece, sempre acontece, não importa seu nível de popularidade. E se você morre de dificuldade de dizer NÃO EU NÃO VOU, ou se você sabe que seu amigo vai insistir insistir até você ceder e você não vai ceder nem está com paciência de argumentar, não atenda. O mesmo para sms’s – não responda. Aí, quando estiveres bem disposto a falar, e seu amigo (a) dizer que ligou (ou mandou sms) você diz: ‘Jura? Que horas? Engraçado... o telefone estava do meu lado... nem tocou...’. seu amigo (a) diz que era pra chamar pra festa na casa do X. E complementa com ‘você perdeu, foi muito legal’. Você, que não gosta muito de X, nem de festinhas mudernosas, ainda dissimula: ‘oh, que pena. Eu adoro X, queria muuuuito ter ido! Mas não recebi mesmo sua ligação. Estranho’.
As situações 2, 3, 4 e 5 não diferem muito da primeira. O caso é que você não quer falar ou não quer falar NÃO, seja a uma pessoa te cobrando trabalho, seja a uma pessoa te oferecendo trabalho, seja a um (a) exnamorado (a) te oferecendo amor, seja o papa te oferecendo o paraíso. Aí se agarra à tecnologia, a culpa é dela, você se agarra aos mistérios que a cercam, ao que ela tem de desconhecido e sinistro. Porque às vezes acontece de um sinal não chegar a seu destino, e o ser humano ainda não aprendeu a fazer dessa falha uma aliada. Mais que aliada, aliada não, cúmplice.
É isso. A tecnologia como cúmplice. Nem aliada nem vilã. Assim, acima do bem e do mal, compactuando com seu humor e oferecendo, sem questionar, apoio a suas causas ranzinzas. Um salve à tecnologia.