9 de dezembro de 2009
sentítulo#2
Sem que o nome fosse morte
Ou uma coisa verbal, palavra qualquer, o nome era uma imagem
Uma camiseta cor de exército
Uma frase escrita nela (mas não é essa frase o nome, especificamente)
Uma frase escrita: jesus loves you e também era suja
Uma camiseta escrita jesus loves me e suja de porra
A última porra daquela última guerra
nossa
E o nome só podia ser isso mesmo
E era, vestida de carta de marselha
a própria senhora
a insana,
a guerra, que estava a nossos pés
7 de dezembro de 2009
não confie nesse eulírico
3 de dezembro de 2009
sentítulo#1
fiel, grande amiga e gosto
de repetir por aí a expressão de primeiro mundo
preciso anotar tudo e mesmo assim
esqueço
você
disse, isso daí é remédio pro resto
da vida, eu digo.
isso daqui é agudo e pouco isso daqui é
eu mesma quem fiz/fez/faz
isso daqui se chama péssimo, tem nome de péssimo
essa daqui (batendo no peito, batendo no peito, bater no peito é tema recorrente)
se chama não
talvez não
2 de dezembro de 2009
pra quem se pergunta o que são as F(r)icções Biográficas, tem esse blog e esse texto também
Tentiva #5: com Juliana Amato
"- Começamos num final de semana, mas a segunda vez demorou pra chegar. Estávamos cansados das páginas, queríamos ouvir nossas palavras pelo som. O melhor seria achar alguém como nós, mas eu nem tentava. Ela era uma pessoa agradável, uma dupla funcionaria.
E foi. O Camones foi formado em 2009 e ah, vocês sabem, né? Não vou ficar aqui contando os degraus do sucesso que subimos dos bares da Rua Augusta até a turnê portuguesa Sacudindo o Gigante Adamastor. Sim, com ela o punk nunca mais foi o mesmo. Não tô aqui me vangloriando, são palavras de Marky Ramone e de todas as viúvas lusitanas.
Com o Camones, a Ju conseguiu finalmente aprender a tocar meia lua e a bater palminhas no ritmo. Daí, fomos mais fundo nas raízes brasileiras: gravamos o especial de carnaval Maxixe de Assis: suor e adultério no ar; fizemos a compilação dos shows com o Forrimbaud no dvd Uma temporada no inferno - os piores risca-faca do Brasil.
Decaída? Talvez. Mas vocês tem de concordar que o grau técnico se aprimorou. Tudo bem, nos tornamos mais distantes nessa época: cada um produzindo suas palavras-valise, o que funcionava bem se a gente for ver quantas pessoas iam às raves do Dance Joyce.
Mas é, a técnica não basta: algo em nós não fazia mais sentido. E então eu vi que tudo precisava acabar. Meu projeto solo, o Waltz Whitman, não rolou, não sei, eu não estava bem.
O resultado deste disco é realmente surpreendente. Sem mais, por ora."
.
Mario Sagayama - em declaração sobre o lançamento de mais um disco da Mc Dickinson
30 de novembro de 2009
F(r)icções Biográficas
a ideia foi do mario que mario e eu achei legal e fiz também
Tentativa#1: sem título
A (RE)VOLTA TRIUNFÁLICA
21 de setembro de 2009

Cindy Sherman
*
contexto histórico:
o mármore em
uma mesa em uma
sala de recepção
a mulher do outro lado
a mulher do outro lado poderia chamar-se
‘eu’
- mas é necessário certo distanciamento
para uma análise crítica
a mulher do outro lado, pois,
está ausente enquanto
cinquenta xícaras de chá chegam a você
você pega duas xícaras
‘saber recusar é importante’, você diz
17 de setembro de 2009
Jóquei clube - ou: recomeço dos fins

Matthew Barney, Cremaster#2.
*
o nome do cavalo 4 era
Bare with me e fomos nele
Porque era emblemático àquela hora
apostar tudo em:
Bare with me.
então dar as mãos e repetir
sussurrando, música: Bare
With me, Bare with me, Bare with me…
*
(acidental:
Os cavalinhos correndo
E nós, cavalões, comendo...
Manuel Bandeira, Rondó dos cavalinhos)
31 de agosto de 2009
para Beu Abigo

Ready for the Floor. Ph. Thais Rimkus.
*
Lembrei de um curta que assisti na Mostra que o cara dizia que quando era criança, era milionário, por ter muito tempo para viver e também por poder ver o tempo de outra forma.
Mas isso foi só uma lembrança, porque eu usei a palavra tempo antes e esse curta tem sido a primeira coisa que me passa pela cabeça quando ouço/leio a palavra. Tempo.
Queria vê-lo antes de ele ir mas acho que isso não vai acontecer. E se acontecesse eu não ia ter coragem de dizer o que eu quero dizer pra ele, caracara, então vai ser por aqui mesmo, ele passa por aqui, ele é meu fã número 1. Risos.
Um amigo em comum, sexta-feira, me disse assim: O Gustavo mudou completamente a forma como eu via a poesia, a vida, tudo. Talvez não tenham sido essas palavras, mas era a essência, estávamos meio bêbados nessa hora, eu e ele, ficamos horas falando de como a gente ama o Gu, como a gente vai sentir saudade, como Cuba é longe.
Ao mesmo tempo, falando sobre como ele deve ir fazer esse curso, o quanto isso vai ser lindo e importante pra vida dele, como ele é corajoso, como torcemos muito por ele, como Cuba é longe.
Já tinha dito pra ele há tempos que também as minhas visões sobre as coisas mudaram depois que ficamos próximos e agora me pergunto, desolada, dramática: quem vai ser meu amigo desempregado (no momento)? Quem vai ficar pagando pau para as pessoas junto comigo? Quem vai reclamar de Letras comigo e quem vai nos lançamentos beber de graça e dançar pro telão? Quem vai aloprar os que merecem? – vai ser difícil aloprar sozinha. Quem vai voltar a fumar junto comigo na Augusta-meio-de-semana-meio-da-tarde? Quem vai ficar falando mal dos outros comigo? Quem vai junto cortar o cabelo? Com quem eu vou tirar foto pro Glamurama e pro Cesar Giobbi? Quem vai entender todas as crises Julianísticas, todas, e dar os melhores conselhos ou deixar Juliana ainda mais confusa? Oh, quem vai dançar comigo na frente da Pinacoteca?
Ninguém, esse é seu posto, Guxo. E quando voltar esteja preparado que vamos ficar muito famosos: iates, uísque e mulheres. Você traz os charutos.
Te amo.
Fuerza y suerte.
Vai lá e arrasa.
Não bebe nada do copo de ninguém.
E pode ficar com o livro da Miranda, presentinho.
28 de agosto de 2009
24 de agosto de 2009
ávidos leitores
Ontem foi lindo e lotou mais que esperávamos.
Muito obrigada a todos pela presença. Foi uma noite feliz, noite feliz.
Ainda não parei de sorrir.
Espero sinceramente que os leitores gostem da cachacinha, mas - é sempre importante lembrar - bebam com moderação.
17 de agosto de 2009
13 de agosto de 2009
Da perda
VERBETES - 1.
Já sei:
- ei, Juliana, o que é frustração pra você?
- é uma coisa que nunca acontece.
Acho que fica melhor se tirar o ‘pra você’. Vejamos:
- ei, Juliana, o que é frustração?
- é uma coisa que nunca acontece.
Agora acho que deu na mesma.
Tentar mil vezes até eu entender o que quis dizer e o que quero que entendam.
Existe um sentimento, que não é uma coisa, que se chama FRUSTRAÇÃO, e ele aparece quando você quer que alguma coisa aconteça, mas a coisa não acontece. Daí, a coisa não acontecendo, acontece a frustração. Há. Acho que deu. Na primeira tentativa. Dá pra perceber o exemplo vivo? Eu não estou frustrada com isso porque consegui escrever o que eu queria e, principalmente, entender o que eu queria.
A coisa que não acontece pode ser uma coisa qualquer, como uma não-mudança. Quando você quer muito que alguma coisa aconteça, um novo emprego, por exemplo, quando você espera mil e duas respostas e nenhuma chega. Aí você fica FRUSTRADA – que é o estado/situação de quem passa por uma frustração – e quer fazer algo indelicado, absurdo, obsceno e extremo contra você mesma ou contra qualquer pessoa que você vê passar na rua ou numa festa e você não vai com a cara.
7 de agosto de 2009
1001 RECEITAS ESTÚPIDAS
Que ideia é essa?
Exatamente como te disse: receitas que não dão certo.
E qual a utilidade?
Veja bem: existem livros de receitas. Receitas boas e saborosas. Receitas fantásticas. O meu é de receitas ruins, que você jamais, nunca deve tentar fazer, porque não vão dar certo. Tem combinações de ingredientes que não devem ser feitas em hipótese alguma.
E?
Imagina só: a pessoa está doida pra comer suflê de manga. Mas não acha a receita em lugar algum, porque isso não se faz, fica horrível. Suflê de manga é a especialidade do meu livro. É. Uma das primeiras receitas.
Mas daí a pessoa encontra a receita no seu livro, uma receita que ela quer e nunca encontra. O que ela vai fazer? Eu acho que a primeira coisa é tentar fazer o suflê.
Aí que você se engana. Não leu o título do livro não? A pessoa vai ver que tem o suflê lá e vai desistir.
Mas qual o interesse de fazer pessoas desistirem?
É fazer pessoas não perderem tempo. Não é bem fazê-las desistir, mas não insistirem.
Mas e se a pessoa fizer a receita?
Nada de mal acontecerá. A receita vai ficar horrorosa, o marido vai xingá-la, os filhos vão cuspir de volta no prato, as visitas vão comer por educação, com caras constrangidas. Podem até elogiar, mas, no fim, ela mesma verá que não valeu a pena perder tanto tempo. Em geral, as receitas mais demoradas são as que ficam mais ruins.
E então quando a pessoa que comprar o livro perceber que as receitas são ruins, vão jogar fora, vão desfazer-se do livro. Os sebos ficarão abarrotados, cheios dos seus livros.
Não não não. Coisas ruins, experiências ruins, são inesquecíveis. E os seres humanos, curiosos e alimentadores de seus males, conservam esse tipo de experiência. Os livros ficarão guardados nas gavetas de receitas das donas&donos, ou mesmo na mesinha de centro, enfeitando suas salas, o projeto gráfico será incrível. Mas se forem para os sebos, também, não é mal, porque as receitas ruins serão disseminadas e assim ninguém mais perderá tempo com elas.
E se alguém fizer uma receita do seu livro e ficar bom?
Não dá. Isso é impossível.
Milagres acontecem.
Não, milagres não acontecem. Acidentes acontecem.
E se, por ACIDENTE, uma receita ficar boa?
Aí não seria acidente, acidentes são ruins.
... é.
Voltando ao assunto do livro... você acha mesmo que esse título é vendável?
Acho que é curioso, pessoas gostam de coisas curiosas.
E se mudássemos para algo mais otimista?
O livro não é otimista... quer dizer, pode até acabar sendo... tem aquelas teorias todas dos opostos... mas ele é pessimista por natureza.
E por que tanto pessimismo?
Não faz sentido ser otimista após os 30.
Hm.
Ah, eu acho, sei lá.
Você já tentou fazer alguma receita do livro?
Não, ué. Não vou perder meu tempo.
Mas você as escreveu, não?
Sim, mas escrever demora menos que fazer.
E como sabe que elas não funcionam?
Eu já disse. Elas não funcionam.
Você garante?
Garanto.
Fechado. Vamos publicar.
4 de agosto de 2009
acontecido

Dá pra entender? Há o abismo. Há os dois lados não ligados, não ligáveis.
E há um fundo.
3 de agosto de 2009
CRONOLOGIA
No princípio era
bigulin
depois pipi, pinto
pênis
pau
jeba
cacete
até que Lady Kelly falou
me enfia esse caralho gostoso
27 de julho de 2009
CUIDE DE VOCÊ

ph. divulgação.
*
O título da exposição sugere o que pode ser encontrado. Quando lemos cuide de você e sabemos das origens da exposição, é possível imaginar o sentimentalismo escorrendo no galpão do SESC. Eu, tragicômica sentimentalóide do pior tipo, fui até lá e fiquei surpresa com a objetividade dos depoimentos e da arte de Sophie Calle.
E exposição, seu conceito e produção, parte de uma carta de rompimento que a artista recebeu de um namorado. Dor, dor, muita dor. Então ela, que não sabia se ou como ou o que responder, enviou a carta para 107 mulheres de diversas idades e profissões, para que elas interpretassem, respondessem, interagissem com a carta. A exigência era de que o fizessem de acordo com suas profissões.
Resultado: leituras objetivas e irônicas das cartas. Seu sentido subvertido e transformado em outro objeto.
As leituras foram objetivas, não mantiveram a dor, principal sentimento que a destinatária passou ao ler a carta. As múltiplas leituras criaram, por muitas vezes, sentimentos novos a partir de cada olhar. Há momentos engraçados, de indignação, de susto. Há momentos não identificados.
Isso é o mais bacana. Libertando sua carta, a artista faz esgotar o sentido dela, e através da arte, mostra as inúmeras possibilidades de sentido que um objeto pode ter, além de unir pessoas por um objetivo em comum – faz-se um pacto, todas aquelas mulheres (e, dentro da exposição, o visitante) dividem uma história, a história de Sophie, e são capazes de apreendê-la e contá-la.
É uma exposição muito linda e fica no SESC Pompéia até 7 de set.
Vale a pena, vale.
E desperta seus instintos mais latrocidas.
17 de julho de 2009
1 de julho de 2009
fluida, valsa, escapista
*
*
*
*
*
Por ter dançado a nona valsa, você queria a inteira
Rei das coisas aparecíveis
nosso castelo intacto, nosso jardim de pedras agudas
Pegou-me o lenço
o lençol
levamos semanalmente as roupas à lavanderia e somos objetivos
feito coelhos
Valsas, eu valso, voltemos a elas
pois:
Imagine um salão enorme
de enorme
e muitas velas
em volta de uma escuridão de baile
Finge que eu sou fina, bem, e eu finjo que você é meu
29 de junho de 2009
22 de junho de 2009
14 de junho de 2009
12 de junho de 2009
11 de junho de 2009
Histrionico 2
9 de junho de 2009
MADRUGAL
acadêmica
quando não acho palavras
acendo cigarros
o quarto fede...
descubro o poder da madrugada
para trabalhos de faculdade
3 de junho de 2009

Marília Lourenço e Natália Gil. Gravura n.1 da série Meu, seu, nos outros. Jun/08
*
que assim seja
o preto no branco, cobertores, a dose extra rente a nossos
planos
amanhã bem que podia ser domingo
e de verdade, amanhã, bem
ou mal, estaremos menos
vivos
a dose. continuemos
- cutty sark,
please
aquele velho livro
a velha palavra, a dita
a sala vazia a preferir instantes
e
apenas
cigarros, cigarros, meia luz, um velho disco, pierrot riscado e tombando, algo fora atormenta,
(imagem de)
outono
2 de junho de 2009
27 de maio de 2009
Pérolas poraí

Cartaz by Juliana Moore
Daí perguntaram assim: sobre o que é o curta?
nem eu nem Gustav soubemos responder.
Eu disse: é sobre amor. E abaixei e levantei rapidinho as sobrancelhas.
*
Então que Pérolas está por aqui:
http://fiztv.uol.com.br/f/Video/assista/26141
e seria bem bacana da parte de todos os meus amigos que vissem algumas vezes e votassem. Porque daí eu e o Gustav vamos ficar famosos e ter charutos, uísque, mulheres e iates.
beijos.
PS1: 'Recomendo que veja com a tela pequena mesmo, já que a resolução não é das melhores.'
Frase do diretor do curta, o célebre Gustavo Vinagre.
23 de maio de 2009
ORALIDADE
22 de maio de 2009
15 de maio de 2009
FOSSES
14 de maio de 2009
histriônico1

Pablo Picasso. Weeping Woman, 1937.
*
eu não aguento gente me dando ordenseu não aguento gente querendo que eu seja uma coisa que
eu não aguento gente intrometida
eu não aguento gente
eu não aguento gente que diz eu já sabia
eu não aguento mais esse mal-humor
eu não aguento mais servir mesas
eu não aguento mais pegar ônibus
eu não aguento mais fumar
eu não aguento mais pesar 56 quilos
eu não aguento mais de 20 no supino
eu não aguento mais essa bagunça financeira
nem essa bagunça física
eu não aguento mais essa distancia
eu não consigo mais esse abismo
eu tenho muita fome
eu tenho muito sono
eu não aguento mais
que isso seja tão real
11 de maio de 2009
8 de maio de 2009
reestreia

*

*
Não é porque ela é uma amiga querida que eu vou colocar isso aqui.
É porque essa montagem é delicada, bela, e não trata a Macabea como uma idiota.
É porque eu adoro literatura e Clarice Lispector e tenho um leve pânico de adaptações. Mas essa está linda. E vai reestrear amanhã.
*
CiaQuemseindaga
Apresenta:
*EFEMÉRIDES*
explosão; também conhecida como história lacrimogênica de cordel. Que se há de fazer com a verdade de que todo mundo é um pouco triste e um pouco só.
De 09 a 30 de Maio de 2009
Sábados as 19:30
Teatro Irene Ravache
R. Capote Valente, 667 - pinheiros
Entrada: R$ 20.
(meia para estudantes, classe artística e Idosos)
CONCEPÇÃO E DIREÇÃO:Aline Ferraz
ELENCO:François Moretti
João Hannuch
Marcio Rossi
Natália Lemos
Contato Produção
Camila-9623-1808
quemseindaga@gmail.com
5 de maio de 2009
ficadica
FILMEFOBIA, DE KIKO GOIFMAN.
EN CARTAZ NOS MELHORES CINEMAS.
RÁ.
*
Vale porque desconstrói qualquer fronteira de gênero.
Porque as imagens são incríveis.
Porque participamos das imagens incríveis.
Porque fala da manipulação e da mentira sem usar as palavras manipulação e mentira.
*
E o Gu arrasou muito no texto sobre o filme.
4 de maio de 2009
29 de abril de 2009
Instruções 1

René Magritte. The false mirror, 1928.
*
Como apropriar-se de X
(Claro, isso diante de seu próprio ponto-de-vista
Nenhum X é apropriado da mesma maneira)
Passo 1: Dê um nome a X
Ensine-o a sentar
Quando X fizer certo, sorria, mas não muito
Dê três tapinhas nas costas, carinhosamente
Quando X errar
Castigue-o
*Atenção: uma punição só é justa quando dói
Faça de X seu cordeirinho manso
E educado e cheio de culpa
2:
Atribua a X um valor de troca
23 de abril de 2009
conselhos
21 de abril de 2009
semelhantes

Com meus maridos
Doentes
Ela diz que é uma obsessão pelo domínio e pela onipresença
Ela diz que é injusto mante-los doentes
Ela diz que é mórbido e patológico
E que eu devia mudar
de categoria
(Logo eu
eu que nunca quis estar em lugar algum)
Mamãe assa bolinhos sem-fim nas tardes e olha com desdém
Mamãe não tem mais marido
Ele foi pra guerra
Ele foi comprar cigarro
Ele nunca mais voltou
15 de abril de 2009
12 de abril de 2009
VALSA

WALTZ WITH BASHIR
ARI FOLMAN, 2008.
*
A animação começa com um sonho. Então, freudianamente, percorre longos caminhos, guerras, até chegar à realidade mais pura e dolorosa, escondida. Recuperada através da fala, do relato, diálogo entre personagens (reais?) que viveram a mesma situação.
O filme vai se construindo a nossos olhos a partir, primeiramente, da narração das personagens. Tudo que ocorre é narrado, o que nos traz a impressão de compartilhar, saber antes. Nos primeiros movimentos do filme a ótica de quem vai narrando dita os ritmos e acontecimentos, tudo é subjetivo e também muito poético, imagens e alegorias se espalham na tela. Em cenas de não-movimento – as cenas de diálogos entre personagens normalmente sentados, parados, conversando – há, em plano de fundo, uma imagem muito simbólica que se move.
A partir desse primeiro movimento, repleto também de repetições e destaques, vai se desenvolvendo uma abordagem mais objetiva da realidade. Movimento dois: passamos, portanto, da narração e visão subjetiva para a visão objetiva. O discurso fica direto, as intervenções do narrador são esparsas e assistimos à formação de uma nova realidade. Do sonho à lembrança. As imagens alegóricas vão sumindo, a narração e os acontecimentos ocorrem simultaneamente (antes a narração vinha primeiro) e um novo vocabulário de introduz, uma nova forma na reconstrução da história. Junto com essa reconstrução vem o questionamento de quanto e como é possível reconstruir algo coletivo. Algo coletivo, desesperador e diverso como a guerra.
Ficamos atentos a esse movimento até o final do filme, para dar de cara com um terceiro – e último – movimento: a realidade em si. Nessa hora a animação vira imagens reais como numa explosão, porque a mudança de um movimento para o outro acaba ocorrendo por uma linguagem não ser mais eficaz na representação da história. A linguagem da animação se torna insustentável num crescente. A realidade aparece breve e conclui o questionamento, depois de vermos a tensão crescente diante de nós, a tensão que começa subjetiva, depois restringe-se a um grupo – o grupo que participava da guerra – e depois envolve todos, inclusive os espectadores.
As imagens nada convencionais, artísticas, uma trilha sonora genial e a condução da história trazem também uma questão maior: sendo uma obra totalmente envolta de crítica, evocando questões reais e graves, não há clichês, panfletos ou indicações de culpas sociais. A questão é real, o conflito é real, a guerra é. Mas, ao realizar um filme, ao concretizar uma obra de arte com esse tema, é prezada sua forma. A partir disso a obra toma seu caráter humano acima do político, a arte se impõe e indica as infinitas possibilidades que o homem possui, que o mundo possui.
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