Leysla Kedman me perguntava o que eu achei do texto tal do filósofo tal enquanto fazia elevação nos quatro apoios com uma caneleira velha cheirando a mofo. Disse que não tinha lido e ela disse grande bosta. Estava sobre um tapetinho preto imundo de pelo de gato. Eu estava sentada na poltrona, fumando um cigarro, naquela posição de sereia na pedra. Ela dizia que já estava acabando o exercício do dia, que era um porre, que ela não precisava passar por isso com aquela bunda esculpida por deus, mas ajudava na prospecção, além de dar mais energia nas pernocas e aliviar a tensão no salto acrílico. Leysla fez dois ou três movimentos com cada perna e cansou. Me mandou pelo menos ir lavar a louça velha da pia, não ficar aí parada me olhando enquanto eu.
Quem não conhece Leysla Kedman precisa conhecê-la. Devia, pelo menos uma vez nessa porca vida, ver a moça pintando as unhas dos pés. Enquanto blasfema.
Quando a Juliana me apresentou Leysla era fim do ano. Juliana falou que meu vestido era frondoso e Leysla não falou nada, estava quieta no sofá. Nem um pio. Às vezes olhava. Então eu e Juliana fumávamos sem parar e falar de quando tínhamos 16 ou 17 anos, que graça. Leysla olhou pra cima beijando o santo, foi tomar um banho e saiu da sala.
Quando eu reconheci Juliana era fim do ano e ela falou que meu vestido era frondoso. Assinou meu exemplar do seu livro, A Quenga de plástico, e ficamos conversando e fumando sem parar, falando do futuro. Levei pra ela meu filho feio e ela benzeu com pitú. Saí de lá um pouco eletrizada e só uma porção de nuggets com catchup e a mão carinhosa do meu bem puderam me acalmar de fato. Depois, quase nem percebo: eu estava na cama com meu parceiro, a falar do presente, dormindo, e Leysla estava sentada no criado-mudo, seminua.
Não tive escolha. Na virada do ano, réveillon e champanha, levei a Leysla. A Juliana também foi, mas ficou na lembrança. Foram dias inesquecíveis, para Leysla, para mim. Situações delirantes. Leysla é uma companhia ótima, divertidíssima, super alto astral – apesar de ela odiar altos astrais. Vivemos intensamente ali. Presenciamos momentos de riqueza.
Chegamos até a ter uma situação inusitada para contar pros amigos na volta. Bem, estávamos apenas nós duas na praia, o guarda-sol, o ipod, a canga e a Quenga. De repente, um caminhoneiro parou seu caminhão na beira da estrada, caminhou caminhoneiro até a beira d’água, tirou o macacão verde e mergulhou assim, de cuecas.
Não sei exatamente o que aconteceu ali, mas Leysla e eu (eu antes, por estar avidamente atenta) começamos a ouvir gemidos imponentes vindos daquele homem, bem daquela direção. Nem eu nem ninguém além de mim e Leysla na praia, cinquenta metros pra lá e cinquenta pra lá, nada. O homem urrava e olhava em nossa direção.
Assim que percebeu, a Leysla: “olha lá, olha lá, hahaha. Shhhhhhh! Tá doido!”. Ela falava isso sussurrando, tapinhas no meu ombro. Cala a boca e disfarça, Leysla, que ele está olhando pra cá. Merda, a gente tem que voltar pra casa, para os nossos fortes rapazes. Como vamos levar tudo isso? E a Leysla levantou: “vai à merda, Juliana, segura aí esse teu recalque que eu vou lá dar um mergulho.”
Saí de perto, né. Porra, Leysla. Voltou cantando pro almoço: camarão frito.
Foi tomar um banho, se enfeitou de short jeans e frenteúnica amarela, saltão de acrílico. Deu uma deitada no sofá e ficou por ali.
*
Quando reencontrei Juliana já era janeiro e ela veio logo com fofoca da Leysla. Disse que ela tinha sumido deixando bilhetes estranhos, mas que logo logo ela devia voltar por aí. Fumamos bastante esse dia, contei pra Ju o lance da praia e ela disse nossa, que doida essa Leysla... Achei um tom de desdém, mas né, quem sou eu?
Agora a Leysla está voltando. Não é que a puta conseguiu? Se enfurnou, fodeu, sefodeu e escreveu um dos best céleres da humanidade. Virou a estrela maior dos “orais e anais da literatura”, como ela mesma gosta de dizer.
Nessas, ela deixou de visitar a Ju, que está mordida e nem pode ouvir falar da quenga. Há dias não sai de casa e exibe olheiras fundas, não almoça, só fuma. Juliana tentando escrever uma linha sequer. Pirou um pouco, percebi. E toda vez que toca no nome de Leysla, vira a cara e gospe. E toda vez que ouve alguém falar o nome de Leysla, fuzila com o olhar e ataca um objeto da casa, e se vão os copos, as xícaras, eu mesma já tomei uma cinzeirada. Um dia ela latiu, juro.
Para tentar animá-la, a ela, que é muito mais chegada que a Leysla (ai, eu amo a Leysla, não consigo não pensar ou falar nela!), faço visitas esporádicas. Um dia levei a Juliana tomar um café na padaria e comprei pra ela uma bomba de chocolate. Adiantou médio. Depois, levei ela tomar uma breja. Até que ela relaxou um pouco, mas explodiu quando viu o livro de Leysla na estante daquele bar. Tive que arrastar ela de lá na hora. Pior: todos falavam de Leysla e a Ju chorava demais e babava.
Dias depois, só o pó, tomei uma medida desesperada para ver se Juliana reagia: convidei ela para escrever um filme comigo. Ela falou que tudo bem, mas que não ia sair de casa. Eu vou até aí, eu disse.
A casa dela estava uma zona, tudo quebrado, prateleiras largadas no chão, vidros. Mesa virada. As plantas todas secas. Ela ouviu a porta e disse entra Juju! Tô aqui na área de serviço! Tudo uma zona: “o que você fez aqui, Juliana?”. “Ah, pare de bancar a mamãe!”, revidou. Fui indo, indo para a área de serviço onde batia uma fresta larga de sol. Juliana estava de shorts jeans e biquíni. Estava com as pernas cruzadas e tomava tranquilamente um suco de laranja com vodca.