10 de outubro de 2009

derivando...


O que a gente acreditava tanto para de fazer sentido. MEDÉIA QUER CACHAÇA, por exemplo, agora soa para mim um nome idiota.
Aqui está ficando assim, nonsensinho. Eu vou deixar esse espaço à deriva eu vou parar.
E começar a agir em outros espaços.

Aqui não é obrigação, sabes?
Porque ficou tudo muito cômodo e obrigatório, isso está tomando ares de casamento. E não pretendo me casar desse jeito.


Enfim, crise alguma, repensar e pensar.

salve geraldo




Que é complicado e controverso abordar certos assuntos na arte, isso se sabe. Mas, depois de assistir a um filme como Salve Geral, fica a reflexão de como fazer para não se perder na construção do discurso – que tem de ser pungente, para atingir; e inteligente, para não estabelecer nem fixar julgamentos.

Um acontecimento tão marcante como aquele(s) ataque(s) do PCC à cidade de São Paulo não é nada agradável de assistir. Pior ainda é ver esta história entrecortada pela história de uma mãe e de um filho, entrecortada pela história de uma ruiva, entrecortado pela história da organização criminosa em geral. A impressão que dá é de muita coisa a dizer e uma desordem enorme quanto ao procedimento. Várias vezes é possível se perder, não saber quem é fulano ou o que está acontecendo, ou de onde – e por que – vieram os tiros.

Muito ruído, muito ruído.

Colaborando com tudo isso, diálogos surreais, até risíveis. Isso que foi o pior: salpicavam gargalhadas no cinema diante de algumas falas cuja intenção era dramática. Por não deter-se muito tempo em nenhuma história com propriedade, a história perdeu sua personalidade, os personagens não tiveram tempo de se apropriarem de suas cenas, a verossimilhança fica falha e tudo o que fora construído em uma cena perde-se em outra: nenhum fato ou processo ou acordo fica claro.

Parêntesis indignadinho: o que foi o caso de amor da advogada com o presidiário-chefe-da-organização?

É um filme bagunçado. E, vendo daí, seu trunfo foi incorporar a bagunça que foi – na cabeça e na vida prática – a cidade de São Paulo naqueles 3 dias. O destaque é Andrea Beltrão, linda e ótima, apesar de tudo.

2 de outubro de 2009

dicas para um aniversário inesquecível


Jeff Koons

faça uma lista de coisas que você (eu) alcançou durante todos esses anos
faça uma lista de pessoas (eu) que você alcançou esses anos
Um chá de cidreira
sem açúcar
pergunte a um desconhecido quantos anos ele acha que você (eu) tem (tenho). Se ele disser menos do que você (eu) tem (tenho), então você parece menos experiente do que realmente é. Precisa lidar com isso
faça uma lista do que você (eu) não consegui (u)
em hipótese alguma coloque esta lista ao lado daquela de acertos. Uma fica na geladeira e outra no espelho do banheiro, por exemplo
e também não faça uma lista de pecados
seus ou alheios
tanto faz
aconteça o que acontecer, não faça uma lista de pecados
dê nomes aos filhos que não nasceram
e faça outra lista, com nomes mais bonitos, para os que vão nascer
sinta-se bem sozinho
porque é assim
mesmo com o os anos
e anos
a fio

para o leitor atento



O AMOR NOS TEMPOS DE FRESNO


Saiba que agora eu sei
Que quando tu me falou
Que um dia me amou
Era blefe só pra me manter afim

(FRESNO - '1 eu sem 1 você')

O CAOS REINA



O ANTICRISTO

Esse não é um filme que passa, simplesmente. Quem teve a oportunidade de assistir aO Anticristo, de Lars von Trier com certeza passou por diversas sensações inexplicáveis, e não saiu ileso, não saiu do filme sem pensar nele pelo menos durante duas semanas. Porque é um filme forte, é um filme belo, cheio de movimentos com os quais nos identificamos porque as negações e impossibilidades são uma potencialização de nossas frustrações diárias (por FRUSTRAÇÕES DIÁRIAS entende-se: pequenas demonstrações do abismo de ser, negações de mundo).

Além de tudo isso, as imagens e fotografia soberbas (adoro essa palavra) atraem, chocam, provocam e proporcionam a máxima de que a beleza só é possível se dolorosa.

É a história de um casal sem nome que perde o filho por 'distração'. Impossibilidade-ironia n.1.

Então a mãe, vivida por Charlotte Gainsbourg, entra em depressão, choque, é invadida por uma culpa que a impede de seguir a vida. O marido, psiquiatra, tenta faze-la 'voltar ao normal' (sic), e a leva para uma floresta (onde eles tinham uma casa) chamada Éden (grande ironia n.2). Ali começa a fazer certos 'exercícios ' e vivências com a mulher para que ela enfrente suas paranóias. O efeito é contrário: ao invés de saber e conhecer sua mulher ele a vai desconhecendo cada vez mais e acaba evocando uma personalidade irada e rebelde. Como se fosse um castigo por querer o conhecimento, como se ele estivesse pagando por querer explorar áreas proibidas á razão. Simbologia n.3.

A atmosfera é de situação-limite ao longo de todo o filme. Não há tranqüilidade nem relaxamento em parte alguma - exceto quando a esposa participa de uma 'sessão' de relaxamento (imagens magníficas), mas isso também é logo interrompido e dá lugar à aflição e à dor.

Assim também são as cenas de sexo, quase sempre forçadas pela mulher ao longo do filme, marcadas pela violência e ardor - o que também não deixa de ser uma ironia interessante já que a floresta em que o casal está, repito, chama-se Éden.

É curioso observar a mulher como condutora da narrativa, como quem age sempre, e o homem, por sua vez, como um suporte, condicionado às ações dela, quando na realidade o homem é quem procura interferir e agir a respeito de uma situação para ajuda-la. Tudo isso entrecortado pela existência mitológica da mulher, suas perdas, provocações e condenações ao longo dos séculos, trazendo o aspecto ritual que toda mulher carrega na intenção de superar as próprias dores. No final, a reunião de todas elas em embate com o representante de seu contrário. O homem é cercado, no Éden, por uma multidão de mulheres sem rosto, seguindo, seguindo para outro lugar, já que a ela não cabe o paraíso e sim a culpa, uma culpa de através, além-tempo.

Muitos adjetivos são possíveis e necessários para falar sobre O ANTICRISTO: mítico, simbólico, agressivo, dolorido, sublime. E por aí vai. Acho que dá pra acreditar que esse filme será considerado a obraprima de Lars Von Trier. E para mim, dizer obraprima é dizer: uma coisa que sempre volta.

28 de setembro de 2009

uma coisa e outra



Leonilson, Caderno - 1989.

Ois!

passada rápida para dizer umas... a vie tá dividida entre arquivos no computador do trabalho e no de casa, sem pendrive. Daí que tenho muchas cosas para mostrar que eu tenho visto. Espero que vejam e gostem. Amanhã vem mais coisas, que estão ainda no computador do trampo. E um desabafinho sobre o computador do trampo: não pode Facebook. Minha vida social, que já era pífia, vai desmoronar.

esse projeto a Marília tinha falado há algum tempo, mas só hoje acessei. e gostei muito, vale a pena olhar, é dele a imagem que enfeita esse post.
*
coisa outra 2: uma revista muito foda produzida por Juliana Mundim (é, essas Julianas...), chama FAQ. É bem capaz que seja já conhecida, porque eu sou um atraso. Um atraso bem charmoso, mas um atraso.
O endereço é este: http://www.faqmagazine.net/ e eu fiquei pirando nesse projeto boa parte da minha tarde. Enjoyem.
*
E eu teria tantas coisas mais pra dizer, que estou tão feliz que a Thaís gostou do meu livro e me deu ideias ótimas de o que e como fazer com ele. Eu vou tentar correr atrás de. E tem mais outras coisas, coisas dessa vida que está boa (sic), mas eu vou falar só pra ele no ouvido dele, só pra ele.

27 de setembro de 2009

poética


Carlo Carrà. The Metaphysical Muse, 1917.

*

Preocupa a irmã de sempre:
seja criar cenas. Que leiam
não sendo-as
estando-lhes e,
no estado de estar, compreendam-se.

Do fragmento nasce a coisa sem ar a que chamam cenas.

24 de setembro de 2009

Exercitando a prosa diária 1 - ou: Causas ranzinzas - o primeiro da série

*

MUITO se fala sobre tecnologia, sobre como ela pode ser aliada de nós, pessoas eternamente sem tempo. Também há os humaninhos que adoram conspirar que os aparelhos de celular dão câncer e que email e sites de relacionamento só colaboram para afastar o ser humano de seus semelhantes, e não para uni-los, como previa a proposta inicial.

Às vezes eu odeio celular. Para uma pessoa de humor inconstante, somente o ato de olhar um nome que chama na telinha pode acabar com o dia. Ai, exagerei. Acho que não é o nome em si que pode irritar profundamente, mas o toque do celular, não importa qual seja a musiquinha escolhida. Enfim, há dias e dias e aqueles dias que você simplesmente NÃO QUER FALAR NO TELEFONE. Diriam os simplistas: ‘ora, desligue o celular’. Os não-simplistas hão de concordar que isso é impossível, porque a gente acha que vai receber um telefonema, de número não-identificado, que vai mudar a nossa vida. Então cabe deixar o telefone ligado, ao alcance, e ficar torcendo para ele não tocar. Relação contraditória, mas esse texto vem falar mesmo de contradição. Emails, scraps e mensagens virtuais em geral, por sua vez, irritam menos – a não ser spams, correntes, e algumas divulgações -, porque podemos reagir a eles dentro do próprio ritmo, não é alguém esperando uma reação imediata. Sobre eles, apenas tenho a dizer que viciam.

Pois bem: aqui vim falar de outra função que a tecnologia pode ter, uma função que pode salvar seus fins de semana, suas noites de sono e sua consciência quando você tiver simplesmente que dizer ‘não’ e não sabe como.

Situação 1: amigo (a) ligando para chamar para um programa que você já sabe o que é, e não está nem um pouco afim de ir. Acontece, sempre acontece, não importa seu nível de popularidade. E se você morre de dificuldade de dizer NÃO EU NÃO VOU, ou se você sabe que seu amigo vai insistir insistir até você ceder e você não vai ceder nem está com paciência de argumentar, não atenda. O mesmo para sms’s – não responda. Aí, quando estiveres bem disposto a falar, e seu amigo (a) dizer que ligou (ou mandou sms) você diz: ‘Jura? Que horas? Engraçado... o telefone estava do meu lado... nem tocou...’. seu amigo (a) diz que era pra chamar pra festa na casa do X. E complementa com ‘você perdeu, foi muito legal’. Você, que não gosta muito de X, nem de festinhas mudernosas, ainda dissimula: ‘oh, que pena. Eu adoro X, queria muuuuito ter ido! Mas não recebi mesmo sua ligação. Estranho’.

As situações 2, 3, 4 e 5 não diferem muito da primeira. O caso é que você não quer falar ou não quer falar NÃO, seja a uma pessoa te cobrando trabalho, seja a uma pessoa te oferecendo trabalho, seja a um (a) exnamorado (a) te oferecendo amor, seja o papa te oferecendo o paraíso. Aí se agarra à tecnologia, a culpa é dela, você se agarra aos mistérios que a cercam, ao que ela tem de desconhecido e sinistro. Porque às vezes acontece de um sinal não chegar a seu destino, e o ser humano ainda não aprendeu a fazer dessa falha uma aliada. Mais que aliada, aliada não, cúmplice.

É isso. A tecnologia como cúmplice. Nem aliada nem vilã. Assim, acima do bem e do mal, compactuando com seu humor e oferecendo, sem questionar, apoio a suas causas ranzinzas. Um salve à tecnologia.

21 de setembro de 2009


Cindy Sherman


*

contexto histórico:
o mármore em
uma mesa em uma
sala de recepção

a mulher do outro lado
a mulher do outro lado poderia chamar-se
‘eu’
- mas é necessário certo distanciamento
para uma análise crítica

a mulher do outro lado, pois,
está ausente enquanto
cinquenta xícaras de chá chegam a você

você pega duas xícaras

‘saber recusar é importante’, você diz

17 de setembro de 2009

Jóquei clube - ou: recomeço dos fins


Matthew Barney, Cremaster#2.

*

o nome do cavalo 4 era
Bare with me e fomos nele
Porque era emblemático àquela hora

apostar tudo em:
Bare with me.

então
dar as mãos e repetir
sussurrando, música: Bare
With me, Bare with me, Bare with me…

*

(acidental:

Os cavalinhos correndo
E nós, cavalões, comendo...

Manuel Bandeira, Rondó dos cavalinhos)

12 de setembro de 2009

primeira de setembro

Caro anônimo do post abaixo. Os filhos de Medéia não estão órfãos. Há um tempo, mais mítico que objetivo, foi ela quem ficou órfã deles. Se é que você me entende. Se não entende, conheça o mito. Risos.

Comentários mitológicos à parte, vim justificar uma ausência que nem precisa ou deve ser justificada, já que eu não devo satisfações, mas como o blog também é um caso de ego (quem tem blog sabe muito bem), cá estou, chata e insuportável como nunca.

A correria está deliciosa e deu uma pausa nessa linda manhã de sol. Trabalho, faculdade, leituras fáceis e difíceis o dia todo, pesquisa, muita. E uma coisa é verdade: quanto mais coisas fazemos, mais conseguimos fazer e dar conta de tudo.

Uma observação: o Gu, pessoinha ilustre e importante por aqui e na minha vie, está com um novo blog contando a experiência dele na escola de cinema de Cuba. Chama-se CUBA NA CAM e o endereço é http://gvinagre.zip.net/.

As criações vão bem, muito bem. Recolhendo materiais e pesquisas para meu décimo romance, inspirando-me com July (sempre) e mandando uma porção de coisas à merda. E refletindo sobre a impossibilidade de outras também, mas sem mandar à merda porque daí, nesse caso particular, é feio e fútil.

É isso, galera. Estou poupandome quanto posso e tentando não sair gritando por aí a minha não fé em nada, a minha irritação e o meu ceticismo. Se bem que alguns ouvidos amigos estão sendo bastante alugados para que eu derrame meus achaques. E acreditem, são questões profundíssimas.

Algumas coisas são mentira nesse texto.
*

Um poemeto para ornar:
qualquer semelhança é mera semelhança

repetiam os autofalantes e eu já me acostumei
assim
(até gosto)

A imagem:
um tronco tombando, com relâmpagos
Depois: eram apenas sinos
Depois: não, eram relâmpagos mesmo

(Os sinos eram da sua cabeça
Os sinos ficam por sua conta por seu risco no seu engano)

É que eu tinha mais coisa pra pensar a não ser
Alergias, fazia sol minutos atrás, hoje é dia 18, sabes.

31 de agosto de 2009

para Beu Abigo


Ready for the Floor. Ph. Thais Rimkus.


*

Eu não sei se vai dar tempo de ver ele hoje. Ele vai amanhã, cedo ou tarde, não sei ao certo. E não sei se consigo encontrá-lo hoje para um tchauzinho, por falta de tempo dele, meu, não sei.

Lembrei de um curta que assisti na Mostra que o cara dizia que quando era criança, era milionário, por ter muito tempo para viver e também por poder ver o tempo de outra forma.

Mas isso foi só uma lembrança, porque eu usei a palavra tempo antes e esse curta tem sido a primeira coisa que me passa pela cabeça quando ouço/leio a palavra. Tempo.

Queria vê-lo antes de ele ir mas acho que isso não vai acontecer. E se acontecesse eu não ia ter coragem de dizer o que eu quero dizer pra ele, caracara, então vai ser por aqui mesmo, ele passa por aqui, ele é meu fã número 1. Risos.

Um amigo em comum, sexta-feira, me disse assim: O Gustavo mudou completamente a forma como eu via a poesia, a vida, tudo. Talvez não tenham sido essas palavras, mas era a essência, estávamos meio bêbados nessa hora, eu e ele, ficamos horas falando de como a gente ama o Gu, como a gente vai sentir saudade, como Cuba é longe.

Ao mesmo tempo, falando sobre como ele deve ir fazer esse curso, o quanto isso vai ser lindo e importante pra vida dele, como ele é corajoso, como torcemos muito por ele, como Cuba é longe.

Já tinha dito pra ele há tempos que também as minhas visões sobre as coisas mudaram depois que ficamos próximos e agora me pergunto, desolada, dramática: quem vai ser meu amigo desempregado (no momento)? Quem vai ficar pagando pau para as pessoas junto comigo? Quem vai reclamar de Letras comigo e quem vai nos lançamentos beber de graça e dançar pro telão? Quem vai aloprar os que merecem? – vai ser difícil aloprar sozinha. Quem vai voltar a fumar junto comigo na Augusta-meio-de-semana-meio-da-tarde? Quem vai ficar falando mal dos outros comigo? Quem vai junto cortar o cabelo? Com quem eu vou tirar foto pro Glamurama e pro Cesar Giobbi? Quem vai entender todas as crises Julianísticas, todas, e dar os melhores conselhos ou deixar Juliana ainda mais confusa? Oh, quem vai dançar comigo na frente da Pinacoteca?

Ninguém, esse é seu posto, Guxo. E quando voltar esteja preparado que vamos ficar muito famosos: iates, uísque e mulheres. Você traz os charutos.

Te amo.
Fuerza y suerte.
Vai lá e arrasa.
Não bebe nada do copo de ninguém.
E pode ficar com o livro da Miranda, presentinho.

28 de agosto de 2009


Paula Rego. Vanitas.
*

NÃO CHORA QUE
toda vez que
você chora
morre
uma criança na África
- ele disse

eu vivo chorando
pelos cantos
crianças vivem
morrendo pela África

24 de agosto de 2009

O VERÃO DO CHIBO


*

PARTIR AO SOL

O VERÃO DE CHIBO é um livro ensolarado. Naquela situação em que o sol está em cima, a pino, e o que se vê pela frente é um poeirão entrecortado por alguns raios, e pés de milho também cortando: o cenário é o meio do milharal. É um livro de guerra, de guerra de soldadinhos de plástico, de travesseiro e cuspe, perigosíssimas até onde a imaginação infantil pode alcançar e permitir-se.

Aí está. A natureza em seu ciclo, tudo em seu lugar e a dúvida de qual é o lugar a se estar, rondando. Estar no lugar do movimento ou da ausência, como um anula o outro e traz mais e mais questões e mistérios. O mistério que a plantação encobre é o de crescer, e quando tudo chega a seu final – a plantação, inclusive – vira hora de partir(-se).

Cheio de delicadeza, O VERÃO DO CHIBO mostra aos leitores tudo o que perdemos e não recuperamos mais. Fica a melancolia, então. Mas nos sentimos também acolhidos por um passado que é do Chibo, que é nosso, que é o presente do narrador. Vivemos durante tempos com(o) um menino de poucos anos, em sua atmosfera de sol e poeira e joelhos ralados, em que tudo parece fácil e muito lúdico e uma hora podem ser 10 anos.

Isso graças ao trabalho criterioso de linguagem dos autores – Emilio Fraia e Vanessa Barbara – na criação de uma expressão nova, original, inquietante, bela.

Fica a dica.

ávidos leitores

*

Ontem foi lindo e lotou mais que esperávamos.
Muito obrigada a todos pela presença. Foi uma noite feliz, noite feliz.
Ainda não parei de sorrir.
Espero sinceramente que os leitores gostem da cachacinha, mas - é sempre importante lembrar - bebam com moderação.

19 de agosto de 2009

hasta hoy


Christian Schad, Count St. Genois d'Anneaucourt, 1927.
*
onde a vida é mais tensa
a maior vagabunda de
todas
rebola e te dá uma ficha
você pega porque é muito pessoa
e joga no 14

você sonha com uma vida
melhor só porque hoje
foi seu pior dia

até hoje

18 de agosto de 2009

ÁVIDA ESPINGARDA




*
Quando o Vicente chamou eu não botei fé. Não pelo Vicente, por mim mesma, uma pessoa sem muita fé. Mas fui, porque estou acostumada a ir, lidando com a minha não fé o tempo todo, e um lado esquerdo dizendo, vai, vai, acredita.

Daí que eu fui, fomos, nós oito, nos conhecendo muito pouco e dividindo um espaço tão bacana como esse.

Agora o livro está pronto. ÁVIDA ESPINGARDA. Eu amo esse título, estou amando estar ali. Ontem eu e a Ana fomos pregar cartazes na Letras, chamar o povo. É, está pronto. Peguei meu exemplar já. E está bonito.

O livro será lançado domingo, dia 23, a partir das 17h, na rua Augusta e é importante dizer que não estaremos oferecendo nada, não será um coquetel, apenas o lançamento do livro, não tivemos cacife para. Não vai ter nem salgadinho Fofura. Mas serão oito, dez pessoas radiantes e lindas e falantes e empolgadas e muito alegres.

Não importa, não importa, não importa. Importa que estamos meio-prontos para termos nossos nomes estampados... ou não. Nunca estaremos prontos pra nada e as pessoas então já podem ler nossa impaciência.

Sejam todos muito benvindos.

Palavras de uma pessimotimista.

17 de agosto de 2009

frase solta 2

PARE DE SE INTROMETER NO MEU CAFÉ

frase solta 1

FODE MEU TORNOZELO, FODE.

13 de agosto de 2009

Da perda


Kara Walker

*

como a coisa que fosse embora muito
devagar
chamando para si
devagar
a consciência da perda

esta, me sento e espero paciente que se vá

VERBETES - 1.

Frustração é uma coisa que não acontece nunca. Não, não estou falando que frustração é uma coisa que não acontece nunca, estou definindo a palavra frustração como ‘uma coisa que nunca acontece’, dá pra entender? Embaralhei-me. Tentemos novamente, pois: FRUSTRAÇÃO é uma coisa que não acontece. Estou me repetindo. Pânico.

Já sei:

- ei, Juliana, o que é frustração pra você?
- é uma coisa que nunca acontece.

Acho que fica melhor se tirar o ‘pra você’. Vejamos:

- ei, Juliana, o que é frustração?
- é uma coisa que nunca acontece.

Agora acho que deu na mesma.

Tentar mil vezes até eu entender o que quis dizer e o que quero que entendam.

Existe um sentimento, que não é uma coisa, que se chama FRUSTRAÇÃO, e ele aparece quando você quer que alguma coisa aconteça, mas a coisa não acontece. Daí, a coisa não acontecendo, acontece a frustração. Há. Acho que deu. Na primeira tentativa. Dá pra perceber o exemplo vivo? Eu não estou frustrada com isso porque consegui escrever o que eu queria e, principalmente, entender o que eu queria.

A coisa que não acontece pode ser uma coisa qualquer, como uma não-mudança. Quando você quer muito que alguma coisa aconteça, um novo emprego, por exemplo, quando você espera mil e duas respostas e nenhuma chega. Aí você fica FRUSTRADA – que é o estado/situação de quem passa por uma frustração – e quer fazer algo indelicado, absurdo, obsceno e extremo contra você mesma ou contra qualquer pessoa que você vê passar na rua ou numa festa e você não vai com a cara.

11 de agosto de 2009

TEORIA DOS AMORES

Para que servem mesas de bar e cafés solitários à tarde senão para inventar teorias mirabolantes sobre assuntos não menos complicados? Foi aí que, pensando sobre o amor, esse amigo eterno incompreendido, algumas conclusões apareceram... e não são conclusões tristes, como é de se esperar. São apenas... conclusões, assim, sem adjetivos acompanhando.
Para começar digo que existem três tipos de amor e que um não invalida o outro, eles não se anulam, mas se completam, mútuos, e dialogam entre si.

Um dos tipos de amor é o AMOR IMPOSSÍVEL, importante frisar que não equivale ao amor Platônico. Os amores impossíveis, provavelmente são aqueles que já foram vividos mas que, por incompatibilidade de gênios ou qualquer outro motivo, acabaram. E assim, mesmo acabados, ficam. Quero dizer que vivemos esses amores, que esses amores não mais estão se realizando no plano prático, mas que continuamos amando desesperadamente a pessoa. Desesperadamente não, esse é um termo meio negativo. Claro que muito bem resolvidos com nós mesmos e com a pessoa, lembram-se, essa não é uma teoria triste. Dizemos que fulano é nosso amor impossível com um sorriso no rosto. Normalmente esses amores se tornam grandes amigos, ou nos lembramos deles com muito carinho.

Outro tipo é o AMOR INTOCÁVEL. Esse pode ser mais facilmente confundido com o Platônico, mas também não é igual. O amor intocável é intocável. Assim: amamos uma pessoa, admiramos muito, mas simplesmente não queremos que esse amor se realize. Não queremos porque sabemos bem a pessoa, sabemos que não seria bacana a prática cotidiana do amor, mas isso não faz com que esse amor seja apagado em nós e preferimos assim, amar de longinho e silencioso.

O último tipo, o mais bonito. O AMOR TERRENO. São nossos amores da prática cotidiana – e, por favor, cotidiano, aqui, jamais é uma palavra ruim. Com os amores terrenos é possível construir uma rotina deliciosa, um desejo que só cresce. Por outro lado, já que os outros amores não fazem parte da prática cotidiana, é o nosso amor terreno que sempre é posto à prova. É o nosso amor terreno que às vezes dói, mas que também está sempre ali para resolvermos nossas dores. É o nosso amor terreno, o único, que sabe quanto são importantes certas coisas para nós, como arrumar um emprego dos sonhos ou perder 2 quilos, e também é só com ele que fazemos questão de certas coisas, que aprendemos a importância de outras, como pedir e dar desculpas, como acordar junto.

Eu disse isso pra ele e ele ficou um pouco confuso. Então eu disse que ele era meu amor terreno. O maior deles. Ele ainda não entendeu. Então tivemos uma noite linda, acordamos e tivemos uma manhã linda e já não era preciso entender coisa alguma, ela vivia.

10 de agosto de 2009


Paul Klee, 1934.

*

fazer em
minutos de silêncio, horas
delongas:

qualquer coisa caminha na direção oposta
qualquer coisa que assusta e pulsa
mas não se identifica

um edifício pálido, um imóvel
estatelado navenida suja
movimenta-se quando há sol e está muito

um eu-inseto sobrevoa
confirmando tudo
e num sim, sarcástico,
seca,
eu durmo

7 de agosto de 2009

DO AMOR


Adélia Prado

Assim que se é posto à prova,
na cinza do óbvio, quando
atrás de um caminhão vazando
o homem que pediu sua mão informa:
está transportando líquido.

Podes virar santa se, em silêncio,
Pões de modo gentil a mão no joelho dele
Ou a rainha do inferno se invectivas:
Claro, se está pingando,
Querias que transportasse o quê?

Amar é sofrimento de decantação,
Produz ouro em pepitas,
Elixires de longa vida,
Nasce de seu acre
A árvore da juventude perpétua.

É como cuidar de um jardim,
quase imoral deleitar-se
com cheiro forte do esterco,
um cheiro ruim meio bom,
como disse o menino
quanto a porquinhos no chiqueiro.

É mais que violento o amor.

*

Do livro Oráculos de Maio, 1999.




1001 RECEITAS ESTÚPIDAS


Que ideia é essa?

Exatamente como te disse: receitas que não dão certo.

E qual a utilidade?

Veja bem: existem livros de receitas. Receitas boas e saborosas. Receitas fantásticas. O meu é de receitas ruins, que você jamais, nunca deve tentar fazer, porque não vão dar certo. Tem combinações de ingredientes que não devem ser feitas em hipótese alguma.

E?

Imagina só: a pessoa está doida pra comer suflê de manga. Mas não acha a receita em lugar algum, porque isso não se faz, fica horrível. Suflê de manga é a especialidade do meu livro. É. Uma das primeiras receitas.

Mas daí a pessoa encontra a receita no seu livro, uma receita que ela quer e nunca encontra. O que ela vai fazer? Eu acho que a primeira coisa é tentar fazer o suflê.

Aí que você se engana. Não leu o título do livro não? A pessoa vai ver que tem o suflê lá e vai desistir.

Mas qual o interesse de fazer pessoas desistirem?

É fazer pessoas não perderem tempo. Não é bem fazê-las desistir, mas não insistirem.

Mas e se a pessoa fizer a receita?

Nada de mal acontecerá. A receita vai ficar horrorosa, o marido vai xingá-la, os filhos vão cuspir de volta no prato, as visitas vão comer por educação, com caras constrangidas. Podem até elogiar, mas, no fim, ela mesma verá que não valeu a pena perder tanto tempo. Em geral, as receitas mais demoradas são as que ficam mais ruins.

E então quando a pessoa que comprar o livro perceber que as receitas são ruins, vão jogar fora, vão desfazer-se do livro. Os sebos ficarão abarrotados, cheios dos seus livros.

Não não não. Coisas ruins, experiências ruins, são inesquecíveis. E os seres humanos, curiosos e alimentadores de seus males, conservam esse tipo de experiência. Os livros ficarão guardados nas gavetas de receitas das donas&donos, ou mesmo na mesinha de centro, enfeitando suas salas, o projeto gráfico será incrível. Mas se forem para os sebos, também, não é mal, porque as receitas ruins serão disseminadas e assim ninguém mais perderá tempo com elas.

E se alguém fizer uma receita do seu livro e ficar bom?

Não dá. Isso é impossível.

Milagres acontecem.

Não, milagres não acontecem. Acidentes acontecem.

E se, por ACIDENTE, uma receita ficar boa?

Aí não seria acidente, acidentes são ruins.

... é.

Voltando ao assunto do livro... você acha mesmo que esse título é vendável?

Acho que é curioso, pessoas gostam de coisas curiosas.

E se mudássemos para algo mais otimista?

O livro não é otimista... quer dizer, pode até acabar sendo... tem aquelas teorias todas dos opostos... mas ele é pessimista por natureza.

E por que tanto pessimismo?

Não faz sentido ser otimista após os 30.

Hm.

Ah, eu acho, sei lá.

Você já tentou fazer alguma receita do livro?

Não, ué. Não vou perder meu tempo.

Mas você as escreveu, não?

Sim, mas escrever demora menos que fazer.

E como sabe que elas não funcionam?

Eu já disse. Elas não funcionam.

Você garante?

Garanto.

Fechado. Vamos publicar.

6 de agosto de 2009

Hoje Hoje Hoje

video

vídeo by OSSILVAS

www.youtube.com/thebadkubricks

HOJE





Não vou falar nada porque vai parecer puxa-saquismo

www.revistaonze.com.br

5 de agosto de 2009

Chagall, again.


Marc Chagall, Blue Landscape, 1949.
*
só coisas boas, ele disse
minha cara em suas mãos
eu num colo dele
só as coisas boas ele dizia
feito um mantra acalmando
só as coisas boas e excepcionais
você tendo elas, a vida tendo
você querendo estar nelas
desesperadamente boas
as coisas sempre, coisa estranha
todas as coisas belas

eu num colo, eu num colo dele
ele dizia, diz, dizendo, disse
sempre pessimista, eu, ele
não, as coisas muito belas

uma cara minha, em suas mãos dele
coisas boas, somente as coisas boas
envolta, entorno, enfim, ele dizia isso
foi-se

sem saber, sabendo demais
sem ter a mínima idéia
de que a melhor de todas
é ele sim senhor

4 de agosto de 2009

acontecido


Van Gogh.


E quando dessufoca e sufoca o outro. Há um abismo porque ele não sabe o que dissemos, ele não vai saber o que dissemos, mesmo tendo sentado à nossa frente durante horas ouvindo o que não paramos de falar. Diferente como falar e receber. Há o abismo, e nós jamais imaginamos como é receber o que dizemos quando o que dizemos é para o bem comum. Então isso, desejar o próprio bem, porque se desejar o do outro, no falar, há um abismo, e nada é o mesmo dos dois lados. Porque a gente grita muito, a gente tenta gritar e quer fica fica fica e ele ouve, vai. Vai. Vai. As palavras não servem para esclarecer nada, disseram, elas só disfarçam, traiçoeiras, elas escondem tudo o que dizer e ele jamais vai saber o que dissemos. Por isso sempre dói e por isso nada vai ser leve, não nos entendemos, não entendemos, é impossível, é impossível mesmo prestando muita atenção em tudo, construídos, rígidos cada um a seu modo, e há um abismo mesmo assim, ele não apaga. ELE NÃO ACABA. Só em momentos de fundo, oh, o fundo, talvez.



Dá pra entender? Há o abismo. Há os dois lados não ligados, não ligáveis.
E há um fundo.

3 de agosto de 2009

CRONOLOGIA

*

No princípio era
bigulin

depois pipi, pinto
pênis
pau
jeba
cacete

até que Lady Kelly falou
me enfia esse caralho gostoso

27 de julho de 2009

CUIDE DE VOCÊ


ph. divulgação.

*

O título da exposição sugere o que pode ser encontrado. Quando lemos cuide de você e sabemos das origens da exposição, é possível imaginar o sentimentalismo escorrendo no galpão do SESC. Eu, tragicômica sentimentalóide do pior tipo, fui até lá e fiquei surpresa com a objetividade dos depoimentos e da arte de Sophie Calle.

E exposição, seu conceito e produção, parte de uma carta de rompimento que a artista recebeu de um namorado. Dor, dor, muita dor. Então ela, que não sabia se ou como ou o que responder, enviou a carta para 107 mulheres de diversas idades e profissões, para que elas interpretassem, respondessem, interagissem com a carta. A exigência era de que o fizessem de acordo com suas profissões.

Resultado: leituras objetivas e irônicas das cartas. Seu sentido subvertido e transformado em outro objeto.

As leituras foram objetivas, não mantiveram a dor, principal sentimento que a destinatária passou ao ler a carta. As múltiplas leituras criaram, por muitas vezes, sentimentos novos a partir de cada olhar. Há momentos engraçados, de indignação, de susto. Há momentos não identificados.

Isso é o mais bacana. Libertando sua carta, a artista faz esgotar o sentido dela, e através da arte, mostra as inúmeras possibilidades de sentido que um objeto pode ter, além de unir pessoas por um objetivo em comum – faz-se um pacto, todas aquelas mulheres (e, dentro da exposição, o visitante) dividem uma história, a história de Sophie, e são capazes de apreendê-la e contá-la.

É uma exposição muito linda e fica no SESC Pompéia até 7 de set.
Vale a pena, vale.

E desperta seus instintos mais latrocidas.

lição


*

Cotidiano

O lugar em que se dorme
Onde quer o acordar-se

Cotidiano é

o pior dia das nossas vidas
ou o dia crucial de querer-se

24 de julho de 2009

ideia 2

Eulíricos masculinos, apaixonados e punheteiros.

Correspondendo-se.

Com as mais bensucedidas mulheres desse mundão que, por acaso, deram-lhe o fora.
Sim, começamos com Mirella.

Vem aí: Vera Fischer, Maitê Proença, Xuxa Meneguel, Angela Bismarchi, Sheilas loira e morena e muito mais!

23 de julho de 2009

contíssimo



'Marisa, você me enche o saco!'

Marisa não aguentou

ela fingiu de morta.

pessimismo-realidade (esse é um texto improfundo)

Eu não me movo, e não me envergonho. Eu nunca fico mansa.

Ontem pessoas do Greenpeace faziam ações na Paulista. Entre as dez coisas que mais me irritam, o Greenpeace está na terceira e na sétima posição, por motivos diferentes. E aquelas pessoas. Que ainda não entenderam que já está tudo uma merda mesmo, tudo destruído, não tem solução, o ar não vai ficar limpo nem os rios, adoram parar seu caminho para falar, falar, falar, e se você não para e não dá atenção, se você não compartilha com essa fé imbecil deles de salvar o ambiente, você é olhado feio, hoho, a culpa é toda sua.

Algumas pessoas riem, outras insistem que eu sou a pessoa mais chata que elas já conheceram. Gosto das duas.

Entre as dez coisas que mais irritam, pessoas muito felizes estão na primeira posição. Dividindo o topo com as pessoas otimistas. As felizes irritam porque riem muito e falam alto e falam o tempo todo. As otimistas me irritam porque elas não enxergam.

Estou sem trabalho e não sei o que fazer com a única coisa que sei fazer. Tenho um blog idiota e estou tentando, pela milésima vez, parar de fumar. Desde ontem às 21h estou sem.

Tenho me apegado à falta de fé, mesmo o mundo todo tentando me dizer o contrário.
Ana me disse ontem que estou entediada.

deperto.


ph. Alexandre Paschoalini

A revisão do método: insistir
em décadas vazias no futuro
apegar-se a negativos – o que teriam sido
fossem vistos mais

deperto

ver deperto é circular.

20 de julho de 2009

MAMÃE BISCATE

*
Mamãe-biscate era caso à parte. Garrafinha long neck no bucho, cantil de cachaça na bota. Cartão do maridão na bolsa. Boca de microfone, chupeteava à torto, direto. Unhas compridas, vermelhas, raspando de leve o saco alheio, depois na boquinha, ladesquerdo, mordendinho.

Meiidade, mamãe biscate velha safada, safada!

Quase japa de tanto puxa, repuxa, torce, retorce, Mamãe Biscate parece sempre espantada e, no entanto, orava a herança da primeira Maria e levava a filha pro colégio, levava a filha às aulas de balé, levava filhinha almoçar fora, mas sempre alerta, seu hino. Era mãe bastarda e basta.

Carro importado do ano. Seguinte. Pescoço de galinha, esganiçado. Tatuagem de estrelinha na nuca loiríssima. Pinta no superior do lábio, dando, Mamãe Biscate era muita informação, era total, vivia achando que abafava até que desce do salto e quebra a cara.

Mamãe Biscate sufoca-tristeza num SPA relaxante. Depois sai, PISCA-PISCA e pensa:
NADA SERÁ COMO ANTES.

17 de julho de 2009

adeus ano velho, feliz ano novo.


Bettie Page

DE HOJE EM DIANTE EU TENHO 22.

PARACHUTES PRA MIN.

15 de julho de 2009


Ph. Paparazzo.

*

Mirella

Mirella eu to tentando
Mirella, arrumei emprego, apartamento, Mirella
Arrumei até um bom filho
E desenhei você nas paredes dele

Tudo isso para você voltar, Mirella
Para você ver como eu cresci e não serei mais
Jamais
Seu bebezão indefezo

Mirella eu sei lavar um banheiro
Aprendi a fazer ovo e a recolher e a estender tudo nos varais
E a estender o tempo, Mirella, eu aprendi
Do que são feitos os jardins se você voltar

Então você pensa, cética que só:
Você?

Eu respondo, eu, e tento de novo

13 de julho de 2009

GENTILEZA


ph. capturada por aí. gratias.


*

15 LIÇÕES

1. Gentileza
2. Pedir a conta rabiscandinho o ar irrita muito os garçons
3. Pegar no braço irrita mais ainda
4. Eu posso escrever roteiros
5. Pequenos roteiros, por enquanto
6. Gentileza
7. Nem todos querem o seu bem
8. Há outros que querem seu mal e os que não querem nada
9. É repugnante chamar uma mulher de malcomida
10. Porque as irritações e necessidades femininas não se resumem a sexo
11. Mas, em alguns casos, é o único xingamento possível
12. Eu sei alimentar meu ódio
13. Não sou uma pessoa ruim
14. Apenas não presto para servir mesas
15. Gentileza
16. Eu me demito
17. Hora de correr atrás

7 de julho de 2009

mais pérolas



*

0h00. Canal Brasil.

6 de julho de 2009

duas versões

*

Garota entra no mercado do bairro com sua poodle no colo.
Do fundo de um dos corredores, vem um tiozinho e fica balançando o indicador:
NÃO NÃO NÃO NÃO.

Ela diz é um minuto, só preciso pegar um chá.
Ele diz pra ela vai amarrar ela lá fora.
Ela diz minha cachorra é mais limpa que você. Se você fica andando por aí no mercado, porque ela não pode entrar no meu colo?
Ela diz isso e passa.

*

Garota entra no mercado do bairro com sua poodle. No colo.
Na direção dela vai se aproximando um tiozinho. Ele faz pára-brisa do indicador.

Ele diz é proibido entrar cachorro aqui.
Ela olha, sarcástica. Olha só o que o poder faz com as pessoas, ela diz.
Então ela mostra a arma por baixo da blusa e diz pro tiozinho típico: eu vou entrar no mercado com ela, pegar meu chá, pagar e sair. Dá licença.

1 de julho de 2009

fluida, valsa, escapista

*
*
*
*
*
*

Por ter dançado a nona valsa, você queria a inteira
Rei das coisas aparecíveis
nosso castelo intacto, nosso jardim de pedras agudas

Pegou-me o lenço
o lençol
levamos semanalmente as roupas à lavanderia e somos objetivos
feito coelhos

Valsas, eu valso, voltemos a elas
pois:

Imagine um salão enorme
de enorme
e muitas velas
em volta de uma escuridão de baile

Finge que eu sou fina, bem, e eu finjo que você é meu

29 de junho de 2009

NO SUDOKU FOR YOU

26 de junho de 2009

Crianço – poema oral – brevida parte 1

Gostava de lugar cheio de gente, não
Crianço logo emburrava, Crianço era verde, Crianço cismava que cismava e berrava
Até calma trazer mamã: Crianço, mui-formosa, deveria experimentá-la ela pensou.
E vinha trazindo a rapariga pra Crianço dar paz, bezerrinha de dez, Crianço mais oito, dá dezoito.
Crianço esfalfava. E dormia e dormia chupando o dedão acalmado.

Mamã corria, Crianço dormia. Musculoso.

Depois já de grande, maior ainda, oferendas de mamã para Crianço por causa de tudo: trinta nas costas e ainda não sabia falar, não, ele que costumou berrar, mamã sempre trouxe as consolinhas e Crianço também só sabia o que era cama daí. Não conhecia jardim, nem rua, nem mato. Foi ficando débil mental e mais musculoso, por isso não mudava de nome. Crianço, crianço, crianço, esse aí vai virar santo. Mamã, olha só o tamanho da minha vara: Mamã até ficava triste e já nem precisava arrastar mulher pra Crianço, elas iam até com briga pra ir e tinha fila de espera na rua esperando algum achaque de Crianço para pular em Crianço e conferir o brinquedão. Ninguém vai casar com ele, mamã, ela fingia que não ouviu.

Um dia pensou que ia explodir e explodiu, mas foi nada não, menino saúde de ferro come sopa de pimenta. Só ficou maior e mais burro e mais faminto que rinocerontes. De modo que as meninas do povoado já tinham esgotado e não havia como arrumar mais ou pedir pra ir de novo. Crianço já não sabia pegar-mulher. Sem jeitão depois da explosão. Mamã então levava porcas, cabritas, vacas e girafas, leoas pra satisfazer o rebento e não adiantava, Crianço gostava de carne humana e mulher, o doutor disse que era isso, mesmo Crianço não sabendo falar ainda (e não contando nada a ninguém).

Só sobrou pra Crianço chupar cachimbo e ele não deu certo não. De mongol em mongol explodia muito, mamã já era pele e osso e pensava então que Crianço era o próprio capeta.

22 de junho de 2009


ph. Alexandre Paschoalini e Juliana Amato



18 de junho de 2009

AMOUR


desenho meu

*

Para hablar de ti, hay que ser en español


Mi cosa
esa cosa
su cosa
nuestra cosa

Nuestra cosa es más que cosa

É dois.

E nascerão, assim estão
N a s c e n d o
Coisas sem nome – improváveis
que
todas as horas, vivem:

muito nossas as horas
sempre-e-entretanto
entretudo

14 de junho de 2009

desenho 1


12 de junho de 2009


Morris Louis, Alpha Phi, 1961.


*


colocar hífen
no eulírico toda vez

coisa que cansa

11 de junho de 2009

Histrionico 2


Victor Brauner, Hypergenesse de la Reapparition, 1932.


*
os suicidas deixam cartas

eu deixaria uma lista de desejos
alheios

e uma falta sem nome

9 de junho de 2009

MADRUGAL




acadêmica


quando não acho palavras
acendo cigarros

o quarto fede...

descubro o poder da madrugada
para trabalhos de faculdade