15 de Julho de 2009


Ph. Paparazzo.

*

Mirella

Mirella eu to tentando
Mirella, arrumei emprego, apartamento, Mirella
Arrumei até um bom filho
E desenhei você nas paredes dele

Tudo isso para você voltar, Mirella
Para você ver como eu cresci e não serei mais
Jamais
Seu bebezão indefezo

Mirella eu sei lavar um banheiro
Aprendi a fazer ovo e a recolher e a estender tudo nos varais
E a estender o tempo, Mirella, eu aprendi
Do que são feitos os jardins se você voltar

Então você pensa, cética que só:
Você?

Eu respondo, eu, e tento de novo

13 de Julho de 2009

GENTILEZA


ph. capturada por aí. gratias.


*

15 LIÇÕES

1. Gentileza
2. Pedir a conta rabiscandinho o ar irrita muito os garçons
3. Pegar no braço irrita mais ainda
4. Eu posso escrever roteiros
5. Pequenos roteiros, por enquanto
6. Gentileza
7. Nem todos querem o seu bem
8. Há outros que querem seu mal e os que não querem nada
9. É repugnante chamar uma mulher de malcomida
10. Porque as irritações e necessidades femininas não se resumem a sexo
11. Mas, em alguns casos, é o único xingamento possível
12. Eu sei alimentar meu ódio
13. Não sou uma pessoa ruim
14. Apenas não presto para servir mesas
15. Gentileza
16. Eu me demito
17. Hora de correr atrás

7 de Julho de 2009

mais pérolas



*

0h00. Canal Brasil.

6 de Julho de 2009

duas versões

*

Garota entra no mercado do bairro com sua poodle no colo.
Do fundo de um dos corredores, vem um tiozinho e fica balançando o indicador:
NÃO NÃO NÃO NÃO.

Ela diz é um minuto, só preciso pegar um chá.
Ele diz pra ela vai amarrar ela lá fora.
Ela diz minha cachorra é mais limpa que você. Se você fica andando por aí no mercado, porque ela não pode entrar no meu colo?
Ela diz isso e passa.

*

Garota entra no mercado do bairro com sua poodle. No colo.
Na direção dela vai se aproximando um tiozinho. Ele faz pára-brisa do indicador.

Ele diz é proibido entrar cachorro aqui.
Ela olha, sarcástica. Olha só o que o poder faz com as pessoas, ela diz.
Então ela mostra a arma por baixo da blusa e diz pro tiozinho típico: eu vou entrar no mercado com ela, pegar meu chá, pagar e sair. Dá licença.

1 de Julho de 2009

fluida, valsa, escapista

*
*
*
*
*
*

Por ter dançado a nona valsa, você queria a inteira
Rei das coisas aparecíveis
nosso castelo intacto, nosso jardim de pedras agudas

Pegou-me o lenço
o lençol
levamos semanalmente as roupas à lavanderia e somos objetivos
feito coelhos

Valsas, eu valso, voltemos a elas
pois:

Imagine um salão enorme
de enorme
e muitas velas
em volta de uma escuridão de baile

Finge que eu sou fina, bem, e eu finjo que você é meu

29 de Junho de 2009

NO SUDOKU FOR YOU

26 de Junho de 2009

Crianço – poema oral – brevida parte 1

Gostava de lugar cheio de gente, não
Crianço logo emburrava, Crianço era verde, Crianço cismava que cismava e berrava
Até calma trazer mamã: Crianço, mui-formosa, deveria experimentá-la ela pensou.
E vinha trazindo a rapariga pra Crianço dar paz, bezerrinha de dez, Crianço mais oito, dá dezoito.
Crianço esfalfava. E dormia e dormia chupando o dedão acalmado.

Mamã corria, Crianço dormia. Musculoso.

Depois já de grande, maior ainda, oferendas de mamã para Crianço por causa de tudo: trinta nas costas e ainda não sabia falar, não, ele que costumou berrar, mamã sempre trouxe as consolinhas e Crianço também só sabia o que era cama daí. Não conhecia jardim, nem rua, nem mato. Foi ficando débil mental e mais musculoso, por isso não mudava de nome. Crianço, crianço, crianço, esse aí vai virar santo. Mamã, olha só o tamanho da minha vara: Mamã até ficava triste e já nem precisava arrastar mulher pra Crianço, elas iam até com briga pra ir e tinha fila de espera na rua esperando algum achaque de Crianço para pular em Crianço e conferir o brinquedão. Ninguém vai casar com ele, mamã, ela fingia que não ouviu.

Um dia pensou que ia explodir e explodiu, mas foi nada não, menino saúde de ferro come sopa de pimenta. Só ficou maior e mais burro e mais faminto que rinocerontes. De modo que as meninas do povoado já tinham esgotado e não havia como arrumar mais ou pedir pra ir de novo. Crianço já não sabia pegar-mulher. Sem jeitão depois da explosão. Mamã então levava porcas, cabritas, vacas e girafas, leoas pra satisfazer o rebento e não adiantava, Crianço gostava de carne humana e mulher, o doutor disse que era isso, mesmo Crianço não sabendo falar ainda (e não contando nada a ninguém).

Só sobrou pra Crianço chupar cachimbo e ele não deu certo não. De mongol em mongol explodia muito, mamã já era pele e osso e pensava então que Crianço era o próprio capeta.

22 de Junho de 2009


ph. Alexandre Paschoalini e Juliana Amato



18 de Junho de 2009

AMOUR


desenho meu

*

Para hablar de ti, hay que ser en español


Mi cosa
esa cosa
su cosa
nuestra cosa

Nuestra cosa es más que cosa

É dois.

E nascerão, assim estão
N a s c e n d o
Coisas sem nome – improváveis
que
todas as horas, vivem:

muito nossas as horas
sempre-e-entretanto
entretudo

14 de Junho de 2009

desenho 1


12 de Junho de 2009


Morris Louis, Alpha Phi, 1961.


*


colocar hífen
no eulírico toda vez

coisa que cansa

11 de Junho de 2009

Histrionico 2


Victor Brauner, Hypergenesse de la Reapparition, 1932.


*
os suicidas deixam cartas

eu deixaria uma lista de desejos
alheios

e uma falta sem nome

9 de Junho de 2009

MADRUGAL




acadêmica


quando não acho palavras
acendo cigarros

o quarto fede...

descubro o poder da madrugada
para trabalhos de faculdade

7 de Junho de 2009

AULA DE ALONGAMENTO



segura-e-puxa

3 de Junho de 2009


Marília Lourenço e Natália Gil. Gravura n.1 da série Meu, seu, nos outros. Jun/08

*

que assim seja
o preto no branco, cobertores, a dose extra rente a nossos
planos
amanhã bem que podia ser domingo
e de verdade, amanhã, bem
ou mal, estaremos menos
vivos

a dose. continuemos
- cutty sark,
please


aquele velho livro
a velha palavra, a dita
a sala vazia a preferir instantes
e
apenas

cigarros, cigarros, meia luz, um velho disco, pierrot riscado e tombando, algo fora atormenta,
(imagem de)
outono

2 de Junho de 2009


Marília Lourenço. Ventrículo (detalhe). dez/2008.

*

o gato suicida esquece
que serão mais de sete vezes

no papel jornal



Aproveito para agradecer
Gratias, Gilberto!

27 de Maio de 2009

Pérolas poraí


Cartaz by Juliana Moore

Daí perguntaram assim: sobre o que é o curta?

nem eu nem Gustav soubemos responder.

Eu disse: é sobre amor. E abaixei e levantei rapidinho as sobrancelhas.

*

Então que Pérolas está por aqui:

http://fiztv.uol.com.br/f/Video/assista/26141

e seria bem bacana da parte de todos os meus amigos que vissem algumas vezes e votassem. Porque daí eu e o Gustav vamos ficar famosos e ter charutos, uísque, mulheres e iates.

beijos.

PS1: 'Recomendo que veja com a tela pequena mesmo, já que a resolução não é das melhores.'

Frase do diretor do curta, o célebre Gustavo Vinagre.

23 de Maio de 2009

ORALIDADE


Natália Lemos. José 1.





Na REVISTA DE CARNE MOÍDA
você vai estar aprendendo
68 receitas
de carne moída
como macarrões
e carnes moídas

todas fáceis e práticas de fazer
pra quem você gosta e
pra quem não gosta
de carne moída
tem a revista de liquidificador

22 de Maio de 2009



VOCÊ ACREDITA EM DEUS?

ENTÃO VAI PEDIR PRA ELE.

.

15 de Maio de 2009

FOSSES


Natália Lemos, 2009.

*

nada a declarar
do teu silêncio-osso
poderia chamar ausência
não fosses tão presente

é meio dia, sugo
sugo tudo de dia que há no meio disso

- espero morrer
como quem nunca soube
não, como quem nunca sabe
o que é vida -

emergindo, emergindo, emergindo
enquanto atormentas

14 de Maio de 2009

histriônico1


Pablo Picasso. Weeping Woman, 1937.

*

eu não aguento gente me dando ordens
eu não aguento gente querendo que eu seja uma coisa que
eu não aguento gente intrometida
eu não aguento gente
eu não aguento gente que diz eu já sabia

eu não aguento mais esse mal-humor
eu não aguento mais servir mesas
eu não aguento mais pegar ônibus
eu não aguento mais fumar
eu não aguento mais pesar 56 quilos
eu não aguento mais de 20 no supino
eu não aguento mais essa bagunça financeira
nem essa bagunça física

eu não aguento mais essa distancia
eu não consigo mais esse abismo
eu tenho muita fome
eu tenho muito sono
eu não aguento mais
que isso seja tão real

11 de Maio de 2009

curto#1. curta.

*

era um corpo
nu que corria


nome do filme:
A VOLTA.

8 de Maio de 2009

reestreia



*



*

Não é porque ela é uma amiga querida que eu vou colocar isso aqui.
É porque essa montagem é delicada, bela, e não trata a Macabea como uma idiota.
É porque eu adoro literatura e Clarice Lispector e tenho um leve pânico de adaptações. Mas essa está linda. E vai reestrear amanhã.

*

CiaQuemseindaga
Apresenta:

*EFEMÉRIDES*
explosão; também conhecida como história lacrimogênica de cordel. Que se há de fazer com a verdade de que todo mundo é um pouco triste e um pouco só.

De 09 a 30 de Maio de 2009
Sábados as 19:30
Teatro Irene Ravache
R. Capote Valente, 667 - pinheiros
Entrada: R$ 20.
(meia para estudantes, classe artística e Idosos)
CONCEPÇÃO E DIREÇÃO:Aline Ferraz
ELENCO:François Moretti
João Hannuch
Marcio Rossi
Natália Lemos
Contato Produção
Camila-9623-1808
quemseindaga@gmail.com

5 de Maio de 2009

ficadica


'ANGÚSTIA É O MEDO SEM OBJETO'



FILMEFOBIA, DE KIKO GOIFMAN.
EN CARTAZ NOS MELHORES CINEMAS.
RÁ.

*

Vale porque desconstrói qualquer fronteira de gênero.
Porque as imagens são incríveis.
Porque participamos das imagens incríveis.
Porque fala da manipulação e da mentira sem usar as palavras manipulação e mentira.

*

E o Gu arrasou muito no texto sobre o filme.

aqui: http://marfimcariado.blogspot.com

4 de Maio de 2009

do outro blog. para lembrar.

ACREDITEI

PORQUE SERÁ PRECISO
*
Ilustração Natália Lemos

29 de Abril de 2009

Instruções 1


René Magritte. The false mirror, 1928.

*

Como apropriar-se de X

(Claro, isso diante de seu próprio ponto-de-vista
Nenhum X é apropriado da mesma maneira)

Passo 1: Dê um nome a X
Ensine-o a sentar
Quando X fizer certo, sorria, mas não muito
Dê três tapinhas nas costas, carinhosamente
Quando X errar
Castigue-o

*Atenção: uma punição só é justa quando dói

Faça de X seu cordeirinho manso
E educado e cheio de culpa

2:

Atribua a X um valor de troca

23 de Abril de 2009

conselhos


ph. Adolpho Veloso

*


1
Se quiser um conselho:
NÃO LEIA a seção de sexo da women’s health
é estúpida

2
)mais: cuide bem das mãos e pés pois você nunca sabe, não, você nunca sabe
quando vai precisar deles
faça o mesmo com a sua fé
e pelo mesmo motivo(

21 de Abril de 2009

semelhantes


ph. Alexandre Paschoalini
*
Mamãe sempre implica
Com meus maridos
Doentes

Ela diz que é uma obsessão pelo domínio e pela onipresença
Ela diz que é injusto mante-los doentes
Ela diz que é mórbido e patológico
E que eu devia mudar
de categoria

(Logo eu
eu que nunca quis estar em lugar algum)

Mamãe assa bolinhos sem-fim nas tardes e olha com desdém

Mamãe não tem mais marido
Ele foi pra guerra
Ele foi comprar cigarro
Ele nunca mais voltou

15 de Abril de 2009

carta à pessoa


Lucas Cranach, Venus, 1532.

temos as mesmas

mãos:

atadas

e um corpo tatuado de nomes

12 de Abril de 2009

VALSA


WALTZ WITH BASHIR
ARI FOLMAN, 2008.


*
Intenso e simbólico. O homem e o tempo/espaço da narração na construção da memória e história pessoal e coletiva.

A animação começa com um sonho. Então, freudianamente, percorre longos caminhos, guerras, até chegar à realidade mais pura e dolorosa, escondida. Recuperada através da fala, do relato, diálogo entre personagens (reais?) que viveram a mesma situação.

O filme vai se construindo a nossos olhos a partir, primeiramente, da narração das personagens. Tudo que ocorre é narrado, o que nos traz a impressão de compartilhar, saber antes. Nos primeiros movimentos do filme a ótica de quem vai narrando dita os ritmos e acontecimentos, tudo é subjetivo e também muito poético, imagens e alegorias se espalham na tela. Em cenas de não-movimento – as cenas de diálogos entre personagens normalmente sentados, parados, conversando – há, em plano de fundo, uma imagem muito simbólica que se move.

A partir desse primeiro movimento, repleto também de repetições e destaques, vai se desenvolvendo uma abordagem mais objetiva da realidade. Movimento dois: passamos, portanto, da narração e visão subjetiva para a visão objetiva. O discurso fica direto, as intervenções do narrador são esparsas e assistimos à formação de uma nova realidade. Do sonho à lembrança. As imagens alegóricas vão sumindo, a narração e os acontecimentos ocorrem simultaneamente (antes a narração vinha primeiro) e um novo vocabulário de introduz, uma nova forma na reconstrução da história. Junto com essa reconstrução vem o questionamento de quanto e como é possível reconstruir algo coletivo. Algo coletivo, desesperador e diverso como a guerra.

Ficamos atentos a esse movimento até o final do filme, para dar de cara com um terceiro – e último – movimento: a realidade em si. Nessa hora a animação vira imagens reais como numa explosão, porque a mudança de um movimento para o outro acaba ocorrendo por uma linguagem não ser mais eficaz na representação da história. A linguagem da animação se torna insustentável num crescente. A realidade aparece breve e conclui o questionamento, depois de vermos a tensão crescente diante de nós, a tensão que começa subjetiva, depois restringe-se a um grupo – o grupo que participava da guerra – e depois envolve todos, inclusive os espectadores.

As imagens nada convencionais, artísticas, uma trilha sonora genial e a condução da história trazem também uma questão maior: sendo uma obra totalmente envolta de crítica, evocando questões reais e graves, não há clichês, panfletos ou indicações de culpas sociais. A questão é real, o conflito é real, a guerra é. Mas, ao realizar um filme, ao concretizar uma obra de arte com esse tema, é prezada sua forma. A partir disso a obra toma seu caráter humano acima do político, a arte se impõe e indica as infinitas possibilidades que o homem possui, que o mundo possui.

7 de Abril de 2009


Cildo Meireles, sem título.
*
Confortável estar jogada à terra, ao sol.
Oleosa, a superfície, treinamento para peixe-fugido.

6 de Abril de 2009

vago n.1


Marina Abramovic, The Onion (performance), 1995

*

fluida compunha-se
inconcreta
paisagem soterrada em acreditares

- mitológica. Ser ruína, cantada em odes
mas desesperava, despertava, desesperava e via
era inútil desesperarse, a terra cobre
os olhos até últimos pensares

pois sim, minha filha
a velha pegava a mão, velha das cartas:
a lua, bem, a lua
a lua é uma coisa impressionante

29 de Março de 2009

josephine


Paul Delvaux, Venus Asleep, 1944.

*

coisas próprias, Josephine, coisas muito suas


Josephine, você
sobe
pelas paredes.

daí dizendo: Josephine, isso não é jeito de perder-se
ela disse que era inútil: todos queriam Josephine, mãos pequeninas e ágeis
tranças grossas coxas grossas e um olhar grosseiramente

se possível, sair desse agora - e ira

corria, Josephine isso não é jeito de perder-se, mas o rosto já estava colado: close close close, Jose
aventurarse na estranheza que é olhar para fora

de fora.

Josephine, você é linda
eu sou um monstro interno

19 de Março de 2009

para bruno.

A tarde juntos, como há tempos não fazíamos. E no finalzinho da tarde, café com torradas com manteiga e dancinhas de kung-fu, coisas de irmãos, músicas idiotas que a gente fica inventando e não esquece, porque ficou na memória desde crianças. E muitos risos, muitos. Gargalhadas. Mais dancinhas. Piadas idiotas com a casa, piadas que só a gente fazia e ria.

Depois o jantar, vai passar muito tempo para que essa cena se repita, você sentado na minha frente, minha mãe, meu pai, o jantar no meio. A gente sempre riu muito. Mas esse jantar foi silencioso, como se a gente soubesse que vai demorar para a cena se repetir. Eu evitava olhar seu rosto. Eu evitei levantar a cabeça. Mas você fez aquela piada, do cachorro que só tossia e peidava.

Dei conta de que pode demorar para ouvir de novo as piadas, vai demorar um pouco pra gente ficar se xingando de dentuço e baleia durante horas. E também para a gente brigar para ver de quem é o controle ou quem vai tomar banho primeiro. E também para a gente ficar brincando de halterofilismo com a cachorra.

Eu ri e foi um choro.

17 de Março de 2009

UM ROMANCE B



Caio Fernando Abreu - Por Onde Andará Dulce Veiga? - Ediouro.

*

Em 1990 Caio Fernando Abreu publicou o romance Onde andará Dulce Veiga – Um romance B e expôs ao público uma trama investigativa híbrida, unindo uma busca externa e – se for possível separar – a busca de si.

Começa assim: um jornalista sai à procura de Dulce Veiga, uma cantora popular que, vinte anos antes, havia sumido um dia antes de seu show mais importante deixando admiradores inconformados e saudosos. É então nessa busca que ele entra em contato com diversas personagens, extremamente imagéticas, marcantes, ora reais, ora imaginárias, espectros, que conduzem-no a sensações e pistas sobre destinos – de Dulce Veiga, da cidade, dele mesmo.

Nestas pistas há momentos de lirismo explosivo, e é por meio do contato com elas que a personagem principal mergulha em divagações e lembranças que a transportam da realidade fria e objetiva da investigação para a imaginação e sensações livres do sujeito. Realidade e mitologia se confundem e não é mais possível saber se o narrado é objetivo ou imaginário, a linha é tênue, como na vida, e o fato de o romance ser narrado em primeira pessoa, onisciente, dificulta ainda mais a distinção. Muitos são os ecos, as referências, as personagens e ações interrompidas. Inconclusões.

Além desse diálogo entre mitologia e realidade, presente em personagens como uma mãe de santo, uma jovem astróloga e outra religiosa, o romance b apresenta ecos da confusão do final dos anos 1980. A aids, a homossexualidade em discussão e a falta de esperança e fé revelam-se tanto em personagens quanto em acontecimentos, reconduzindo a personagem das atmosferas de sonho para a realidade propriamente dita. Talvez uma realidade mais que a realidade, porque é narrada, porque é uma realidade excluída e está sendo posta à mesa, escrita, descrita.

Curioso é reparar que são as personagens femininas que representam qualquer possibilidade, qualquer fio de esperança ao longo da trama. As personagens masculinas do romance estão sempre marginalizadas de alguma forma, caricatas e grosseiras, postas em xeque, enquanto as femininas sustentam uma dignidade e uma imagem imaculada mesmo passando, também elas, por situações abjetas.

Como cenário, a cidade de São Paulo. O centro dela, lugar que pode abarcar toda a variedade de tipos presentes no texto. Sujeira e barulho embaralhando, provocando a confusão dos sentidos, a náusea de ser tudo tão explícito.

Em suas cartas, Caio Fernando Abreu fala diversas vezes da necessidade da fé, da esperança. Sempre de uma forma poética e inteligente. Não é diferente no romance. A questão é complexa, não pode ser resumida, mas no fundo trata da importância que é a busca, os breves encontros, já que a vida não talvez não passe disso.

trechos

‘Eu deveria cantar.'

‘Até encontrar um táxi, passei por dois anões, um corcunda, três cegos, quatro mancos, um homem-tronco, outro maneta, mais um enrolado em trapos, como um leproso, uma negra sangrando, um velho de muletas, duas gêmeas mongolóides, de braço dado, e tantos mendigos que não consegui contar. A cenografia eram sacos de lixo com cheiro doce, moscas esvoaçando, crianças em volta.’ P.21

‘Minha vida era feita de peças soltas como as de um quebra-cabeças sem molde final. Ao acaso, eu dispunha peças. Algumas chegaram a formar quase uma história, que interrompia-se bruscamente para continuar ou não em mais três ou quatro que nada tinham a ver com aquelas primeiras. Outras restavam solitárias, sem conexão com nada em volta.’ P.56

‘ – Escrever tem desses mistérios. De repente, sem esperar, um dia você consegue despertar alguma coisa que está viva dentro de muita gente.’ P.84

‘(...) é preciso ser capaz de amar meu nojo mais profundo para que ele me mostre o caminho onde eu serei inteiramente eu.’ P.190

‘Era preciso coragem para compreende-la, muito mais que coragem para realiza-la, e coragem nenhuma porque, aceita, ela se faria sozinha.’ P.190

‘ – São tudo estórias, menino. A história está sendo contada, cada um a transforma em outra, na história que quiser. Escolha, entre todas elas, aquela que seu coração mais gostar, e persiga-a até o fim do mundo. (...) Um bom combate, o melhor de todos, o único que vale a pena.’ P.204

‘Pisquei, ofuscado. Ela ergueu o braço direito para o céu, a mão fechada, apenas o indicador apontado para o alto, feito seta.
Depois gritou qualquer coisa que se esfiapou no ar da manhã.
Parecia meu nome.
Bonito, era meu nome.
E eu comecei a cantar.’ P.213

16 de Março de 2009

frases jogadas 4.


Ray Caesar
*
ENTÃO VI. VER É INCOMPLETO.

5 de Março de 2009

frases avulsas 3.


Mark Ryden, Christina, 1998.
.
A HORA CERTA DE POUSAR AS XÍCARAS

3 de Março de 2009

frases avulsas 2.


Ray Caesar, Nostalgia.
.
A CARA ERA DE MIL POSSÍVEIS

1 de Março de 2009

frases esparsas 1.


Mark Ryden. Sophia's Mercurial Waters, 2001.
.
DEI MINHAS PERNAS ABERTAS TE DEI TODAS AS MINHAS PERNAS.

LA AUTOPISTA DEL SUR - JULIO CORTÁZAR

' La muchacha del Dauphine cerró los ojos y pensó en una ducha cayéndole por el cuello y la espalda, corriéndole por llas piernas; el ingeniero, que la miraba de reojo, vio dos lágrimas que le resbalaban por las mejillas.'
.
.
.
.
'por qué esa carrera en la noche entre autos desconocidos donde nadie sabia nada de los otros, donde todo el mundo miraba fijamente hacia adelante, exclusivamente hacia adelante.'

22 de Fevereiro de 2009

LUZ EM AGOSTO, William Faulkner, 1932.

‘Sentada junto ao caminho, contemplando o carro que sobe a colina em sua direção, Lena pensa: “Venho de Alabama. Boa caminhada. Toda a estrada a pé, desde Alabama. Boa caminhada.”’ P. 7 – primeiro parágrafo do romance.

‘ O homem sabe muito pouco sobre os seus semelhantes. A seus olhos todos os homens e mulheres procedem de acordo com o que, segundo o seu modo de ver particular, o moveria a ele se ele fosse tão loucoque fizesse o que os outros fazem.’ P.42

“Agora já sei qual é a razão”, pensava Byron. “É porque a gente receia mais as dificuldades que poderá encontrar do que as que já encontrou. Antes de arriscar-se a mudar, apega-se à dificuldade anterior, à conhecida. Sim. Fala-se em escapar dos vivos, mas são os mortos que nos prejudicam. É dos mortos que não podemos escapar, dos mortos que estão quietos no seu lugar e que não tentam agarrar-nos.” P.64

‘Durante aquele período (a que não se podia dar o nome de lua de mel) viu-a passar por todos os avatares de uma mulher apaixonada. Bem depressa chegou a produzir-lhe alguma coisa mais do que estranheza: espantava-o, deixava-o perplexo. Surpreendia-o imprevistamente com ataques de ciúmes.ela não podia ter nenhuma experiência nesse ponto, não havendo razões para tais cenas e nenhuma protagonista possível. Christmas estava certo de que ela sabia disso. Era como se ela tivesse inventado tudo deliberadamente, com o propósito de representar, como se representa uma comédia.’ P.212

‘Passava a maior parte das noitem sem dormir e compansava-as dormindo de dia. Não estava doente; não era seu corpo. Nunca estivera melhor; seu apetite era enorme e ela estava pesando quinze quilos mais do que já havia pesado algum dia. Não era isso que a conservava acordada. Era qualquer coisa que saía da escuridão, da terra, do próprio verão agonizante, qualquer coisa de ameaçador e terrível para ela, porque o instinto lhe assegurava que não lhe faria mal algum, que a envolveria e trairia completamente, mas não lhe faria mal, que, pelo contrário, seria salva, que a vida continuaria a mesma e até melhor, menos terrível.’ P.216

‘O homem realiza e fabrica muito mais coisas do que pode ou deveria suportar. Assim acaba descobrindo que pode suportar tudo. É isso, e é isso que é terrível: que pode suportar tudo, tudo.’ P.244

‘No seu olhar havia algo de frio e volientamente fanático. Tinha uma curiosidade absurda e impertinente. Solitários, cinzentos, um pouco mais baixos que a maioria dos homens e mulheres, como se pertencessem a uma raça e espécie diferente, a cidade considerava ambos meio desequilibrados, mas nem por isso deixavam de encarregar Hines (...) de alguns pequenos trabalhos adequados às suas forças.’ P.278

“Não devo pensar nisso. Como uma pessoa fugindo de uma arma ou arremessando-se a ela não tem tempo de decidir se se a palavra que define seu ato é coragem e covardia.’ P.319

“Mas no céu e na terra há muitas outras coisas além da verdade”. P.389

‘(...) a que ponto é falso até mesmo o livro mais profundo, quando aplicado à vida.’ p.391
‘ – Puxa! Como uma pessoa viaja! Ainda não há dois meses que saímos de Alabama e já estamos no Tennessee.’ P.412 – último parágrafo do romance.