sexta-feira

subject: um pedido do barulho


Dear Massam

(tou falando com o seu sotaque)

eu quero lhe fazer um pedido
vai mais parecer um convite

a ideia inicial era te chamar pra sair,
pagar um lanchinho com café
levar os joquempôs para te dar

porém, cautelosa que sou, resolvi escrever
e assim evitar o seu constrangimento
em negar, na hora agá

porque eu fiz um filme mental e ele tinha
eu, você, cafés e eu fazia o pedido
e você aceitava o pedido porque havia eu
bem na sua frente
(e não por gostar da ideia
realmente)

também resolvi não lhe chamar
e dizer pessoalmente
porque os joquempôs ainda não estão prontos
(eu enrolo muito, e semana passada fui imprimir e saiu tudo torto
impossível de montar.
me desmotivei
-- mas também pensei que você ia achar que eu queria te comprar
com joquempôs)

sou louca, muito louca
assisti muito seinfeld
e apesar de trabalhar em uma editora, como elaine
sou mais parecida com o george costanza

muito bem sem mais delongas
vou fazer-te meu pedido:
querido e estimado Maçã,
escreve o prefácil do meu novo livro?





*





Re: um pedido do barulho

juliana,
mas que coisa
joquempô desobidiente, af
seinfeld também me moldou
e mais:
ano passado me dei conta
me tornei george costanza
de fato
(com direito a calvície chegando)
(o mesmo humor o mesmo desespero em dates fracassados, tudo)

fiquei feliz com seu convite, que legal
melhor: sou seu leitor e não preciso de esforço pra ler suas coisas
me mande seu livro e me diga quanto tempo terei
depois me prometa
que aceitará
um dia ir lá em casa
ouvir legião e engenheiros comigo

beijos



*

O Thiago Barbalho vai escrever o prefácio do livro das cartas, e é claro que eu estou radiante e vou ouvir legião e engenheiros.

quinta-feira

era uma vez um livro entregue




enfim, depois desse tempo sem escrever nada aqui, muito focada nas questões práticas da vida e em concluir o livro, quero falar sobre ENTREGÁ-LO e o que passou no um-pouco-antes-de.

vou começar do começo, o título. que é a primeira coisa que as pessoas vão ler quando estiverem segurando um exemplar... bem, eu sou muito ruim para títulos. nem do título desta postagem eu gostei. brevida, título do meu primeiro livro, até hoje me causa arrepios, porque acho que ele não tem nada a ver com o conteúdo. eu sei que poderia ter mudado o título, mas quando ganhei o concurso ele logo começou a ser divulgado assim. daí já não tinha como mudar. ou até tinha, mas ia ser uma grande fadiga e eu quis evitar – sempre. o que salvou lindamente o título foi a arte da capa, que reproduziu a breguice do nome com muita personalidade (obrigada, meu amor).

já o jezebel, meu livro-conto-virtual, tem um título que acho demais. acho que acertei legal. ficou bonito o nome na capa, na fonte, o nome combina com o livro, com a ilustração da capa, com o tom da história.

agora esse, o meu novo. o meu primeiro livro de poemas, que começou tão esquisito e foi sendo concebido de um jeito bem suave – apesar de eu achar que todo o processo seria o contrário (eu sempre espero o pior). como ele foi inscrito em um edital, tive de mandá-lo já com um título. no entanto, conforme eu fui escrevendo ele, percebi que aquele título não conduzia aos textos, não tinha muita relação com eles. soava formal demais, distante demais. por mais que meu livro trate da distância também, sempre ela, eu acho que os textos fizeram um movimento contrário, tornando-as próximas, puxando-as para perto ao condensar os textos corridos, escritos à mão, em poemas. então quis mudar o título e propus, em uma carta de dez linhas, que foi (ou ainda será) enviada à Funarte.

um parentes: que estupidez pedir livros já com título antes de eles serem escritos! não deve haver um escritor na hora de elaborar esses editais, ou eles saberiam que é muito provável que o título mude – mesmo que seja para voltar à ideia original – e deixariam essa exigência de lado, ou pelo menos não pediriam justificativas para as mudanças, com cartas de dez linhas (a justificativa cabe em uma linha: “achei um título melhor”; ou em duas palavras: “me enganei”).

que engraçado: escrevi uma carta para poder mexer em meu livro sobre cartas. haha. vamos ver se eles aceitam. acho que eles precisam aceitar. se eles não aceitarem eu vou ficar muito triste e para o lançamento vou preparar um adesivo escrito “O verdadeiro título deste livro é NONONONON” (não vou contar já porque dá mau agouro) e colar nas capas de quem comprar. aí sim.

a entrega do livro estava programada para 10 de março, e dia 9 de março dei uma última lida nele e últimas mexidas, reunindo todos os toques dos leitores primeiros: obrigada Nelson Provazi, que lê tudo muito primeiro mesmo, e Ana Cristina Joaquim, que lê tudo muito atento. obrigada Dree Davanzo pela ajuda com o inglês. voltando, soube através de um email que a entrega tinha sido adiada para 18 de março! fiquei feliz mas não comemorei, porque ele já estava tão prontinho que nem peguei de novo nessa semana extra (tá, não foi só porque ele estava tão prontinho, eu também estava entupida de trabalho e frilas e achei que o mais certo seria cuidar dessa parte prática em vez de caçar pelo nos poema).

dia 17 mandei, por email, o livro pra editora. mandei com cópia para todas as autoras que dividirão esse primeiro grupo da coleção Poesia Menor. não foi um alívio. não foi nada demais, na verdade. foi uma situação boa e pronto. uma sensação de missão cumprida que eu gosto.

agora vêm os preparativos: toda a diagramação, revisão, divulgação do jeito Iara (cheio de coisas bacanas e bem-produzidas) e, por fim, o lançamento. que já tem data e será na casa das rosas (chique). muito curiosa com o que vem e pensando em coisas legais para apresentá-lo ao mundo – porque eu quero parar de ser ranzinza e fazer. simplesmente fazer. sair um pouco do umbigo anti-social e não ligar para os outros ou para o que eles pensam.

aqui as coisas parecem ainda mais solares nesse começo de outono. antes, eu queria que meu livro fosse todo cinzinha, meio em cor de névoa. eu sugeri isso.

agora até vejo ele amarelão e azul, como manda o uniforme.





um sonho no meio




sonhei que fui viajar para escrever meu livro
fui viajar para o interior da Bahia, mas essa era apenas uma parte
do caminho
do interior da Bahia, numa festa de São João fora de época
janelas basculantes, fumaça de fogueira
dava pra ver as dunas da Joaquina, o sol se pondo
pergunto: “a gente ainda vai para Florianópolis?”
alguém responde sim

fico triste e ansiosa porque ainda vai demorar para chegar no meu destino
meu destino àquela altura nem lembro mais se era a Bahia
mas eu via as dunas da Joaquina e um sol se pondo
do quintal do interior baiano, onde já era noite

estava hospedada na casa de uma senhora da alta sociedade
do interior baiano, a casa dela era muito simples
sim o chão era de barro (um interior com cara de interior)
mas ela usava joias e um tailleur
e dizia que receber artistas que precisavam de tempo para criar
ou escritores que precisavam de tempo para escrever
era tradição da casa há muito tempo

ia ficar quinze dias por lá
mandei um sms pra minha mãe avisando
e disse que não avisei antes para não preocupá-la
tudo estava sob controle mas eu também havia esquecido
de avisar aqui no trampo
quinze dias fora eu tinha medo
de ser mandada embora

não lembro mais muitos detalhes
sei que tinha uma amiga comigo
mas ela desaparecia e aparecia

foi sim um sonho muito esquisito
e eu gostaria de assisti-lo
até que acordei de bom humor

mas agora estou meio pra baixo



Comentário e trechos de um livro, de um livro de cartas




tinha passado pela autora italiana Natalia Ginzburg de relance, apenas nos olhamos, e eu sabia que o livro dela era parte daquela coleção da editora cosac naify, de capa dura, só com livros de autoras. Ginzburg. Ginzburg em letras grandes e brancas num fundo verdescuro.

aí um belo dia eu estava contando para o meu colega aqui do trabalho sobre o projeto das cartas (percebi que, cada vez que falo nele, falo uma coisa diferente, e isso vale uma postagem também), e ele me indicou caro michele, um romance dela. como estou devorando tudo o que me dizem que pode servir de referência (ainda falta o her, Bobby e Lueba), comprei online na mesma hora, o livro chegou dois dias depois e já comecei a ler.

é um livro impressionante. o narrador são múltiplos “eus”, integrantes de uma família dispersa, que se expressam através de cartas entre si. poucos são os momentos de descrições ou ações propriamente ditas, e ficamos conhecendo a vida de cada um pelas palavras que eles mesmos manifestam. é da mesma forma que percorremos os cenários e características dos personagens, por suas próprias palavras.

nesse livro pouco importa, portanto, a ação. o importante é a relação que cada personagem tem com o outro, estabelecida por lembranças de um passado familiar conturbado que conduziu cada um a um universo particular, solitário, ricamente explorado pela autora e revelado ao leitor, não sem ironia, um pouco de angústia e melancolia.

e a angústia e melancolia a que me refiro acima vêm da verborragia de certos personagens, e do silêncio contido de outros. é incrível como a autora conseguiu desenvolver nessas cartas vozes tão particulares, tão firmes em seus propósitos e em seus papéis na história, nada vacilantes. e é curioso ver as reflexões de cada um, moldadas por suas personalidades, apenas exprimíveis por meio de cartas, porque são tão duras e reveladoras por vezes.

aí entra o meu interesse: como certas coisas podem ser ditas apenas por cartas. tudo bem, a maioria delas são correspondências a alguém longe e ausente, e por isso não seria possível uma conversa. mas será que certas coisas seriam ditas em uma conversa? a carta, portanto, pode ser um espaço de reflexão, a carta tem esse tempo, a espera. ela exige elaboração.

também, não fossem as cartas a opção da autora para narrar o romance, seria difícil exprimir a solidão dolorida de cada personagem – esse, para mim, é o principal tema do livro –, mesmo tratando-se de um núcleo familiar com os respectivos núcleos. cada pessoa como uma ilha, e as palavras tentam alcançar a outra ilha.

é um livro muito sensível, uma narrativa surpreendente. separei alguns trechos de que gostei muito, e vou colocá-los aqui, para não esquecer.   


p. 44
de Adriana para Michele
“Não sei explicar por que me sinto mais sozinha desde que morreu. Talvez porque tivéssemos lembranças em comum. Éramos os únicos no mundo a ter essas lembranças. Não costumávamos falar delas quando nos encontrávamos. Porém, percebo agora que não era necessário falar. Elas estavam presentes nas horas que passávamos no café Canova e eu achava opressivas e intermináveis. Não eram lembranças felizes porque eu e seu pai nunca fomos muito felizes juntos. E mesmo que tenhamos sido felizes por breves e raros momentos, tudo depois foi emporcalhado, pisado e revolvido. Mas não se amam apenas lembranças felizes. A certa altura da vida, percebe-se que se amam as lembranças.”

p. 47
de Adriana para Michele
“Talvez uma mãe não devesse dizer essas coisas a um filho, porque não são educativas. Mas a questão é que não se sabe mais o que é educação e se realmente existe. Eu não o eduquei. Não estava presente, como ia educá-lo? Eu só o via em Villa Borghese algumas vezes depois do almoço. Com certeza, seu pai não o educava, pois tinha enfiado na cabeça que você já era educado de nascença. De modo que você não foi educado por ninguém. Você cresceu muito abobado, mas não tenho certeza de que seria menos bobo se tivesse recebido de nós educação. As suas irmãs talvez sejam menos bobas que você. Mas elas também são muito estranhas e abobadas, uma por um lado, a outra por outro. Tampouco são ou foram educadas por mim, pois com muita frequência eu me sentia e me sinto uma pessoa com a qual não simpatizo. Para educar alguém é preciso ter em relação a si mesmo pelo menos um pouco de confiança e simpatia.”


p. 48
de Adriana para Michele
“Não lembro quando e como eu e seu pai deixamos de nos odiar. Uma vez ele me deu um tapa no escritório do advogado. Foi tamanho tapa que me saiu muito sangue do nariz. Estava lá também o primo dele, Lillino, e ele e o advogado fizeram-me deitar no sofá e Lillino desceu à farmácia para comprar algodão hemostático. Seu pai trancou-se no banheiro e não saía mais. Tem medo de sangue e sentira-se muito mal. Vajo que escrevi “tem medo” no presente, sempre esqueço que seu pai morreu. Lillino e o advogado batiam no banheiro e sacudiam a porta. Saiu pálido e com os cabelos gotejantes de água, porque tinha metido a cabeça debaixo da torneira. Quando me lembro dessa cena, tenho vontade de rir. Muitas vezes sentia vontade de recordá-la com seu pai para rirmos juntos. Mas nossas relações estavam embalsamadas. Não éramos mais capazes de rir juntos. Tenho a impressão de que depois daquele tapa ele deixou de me odiar. Não queria que eu fosse à Via San Sebastianello, mas às vezes era ele que o acompanhava a Villa Borghese no lugar da cozinheira. Eu também deixei de odiá-lo. Uma vez em Villa Borghese brincamos de cabra-cega com vocês no gramado, eu caí no chão e ele limpou a lama do meu vestido com o seu lenço. Enquanto estava inclinado, limpando a lama, eu via a cabeça dele com as longas madeixas pretas e entendi que entre nós dois não existia mais nem sombra de ódio. Foi um momento de felicidade. Era uma felicidade feita de nada, porque eu sabia muito bem que, mesmo sem ódio, minhas relações com seu pai permaneceriam algo vil e miserável. Porém, lembro que o sol estava se pondo, havia belas nuvens vermelhas sobre a cidade e depois de tanto tempo eu estava quase tranquila e quase feliz.”


p. 70
de Mara para Michele
“Senti muita pena de você daquela vez que tínhamos um encontro e você chegou correndo, pálido, pálido, e disse que tinha atropelado uma freira. Depois, no porão, disse que ela tinha morrido. Estava com a cabeça enterrada no travesseiro, e eu o consolava. Mas, na manhã seguinte, você não falava mais comigo e, quando eu acariciava seus cabelos, fazia aquele som gutural e desviava a cabeça. Você tem um gênio péssimo, mas não é por isso que não quero casar com você. Não quero porque daquela vez e de muitas outras vezes senti pena de você, e eu gostaria de me casar com um homem que nunca me fizesse sentir pena dele, pois já sinto muita de mim mesma. Gostaria de me casar com um homem que me fizesse inveja.



Escreverei de vez em quando. Um abraço,”



mais trechos (para não fazer uma postagem tão enorme)




p. 96
de Adriana para Michele
“Mando-lhe um abraço e votos de felicidade, admitindo que a felicidade exista, coisa que não deve ser de todo excluída, ainda que raramente vejamos traços dela no mundo que nos foi oferecido.”


p. 104
de Adriana para Michele
“Não me parece verdade que terei telefone e logo telefonarei para você. Mas a ideia de lhe telefonar me deixa agitada. Creio não ter os nervos e o coração muito fortes. E pensar que eu era um touro. Mas passei por muitas. Por isso tornei-me frágil.”


p. 124
de Adriana para Michele
“Eu o acho muito inteligente, embora ele pareça manter sua inteligência guardada no tórax, no pulôver e no sorriso, furtando-se a usá-la por motivos que permanecem ocultos. Apesar do seu sorriso, considero-o um homem muito triste. Talvez seja por isso que me habituei à sua companhia. Porque adoro a tristeza. Adoro a tristeza ainda mais do que a inteligência.”


p. 130
de Mara para Angelica
“Escrevo-lhe meu endereço no fim da carta. Não sei se ainda ficarei aqui por muito tempo, pois, de tempos em tempos, a cacheada diz que não pode se dar o luxo de ter alguém em casa com ela. Às vezes diz isso, às vezes me abraça e diz que lhe faço muita companhia. A cacheada me dá pena. Ao mesmo tempo eu a odeio. Descobri que depois de conhecer as pessoas um pouco elas dão pena. Por isso, é muito bom estar com desconhecidos. Porque ainda não chegou o momento em que dão pena e ódio.”


p. 135
de Angelica para Mara
“Escreva-me ou dê-me notícias de você e do seu filho. Agora me acontece de pensar vez ou outra no seu filho, porque Michele tinha me dito que também podia ser dele. Eu não o achava parecido com ele, quando o vi, embora nada exclua que seja mesmo dele. Porém, penso que deveríamos cuidar do seu menino de qualquer modo, sem perguntarmos se é dele, nós, ou seja, eu e minha mãe e minhas irmãs, e por que acho que deveríamos eu não sei, mas nem todas as coisas que somos levados a fazer têm uma explicação, aliás, para dizer a verdade, acho que os deveres que temos não têm explicação. Assim, penso que procuraremos lhe mandar dinheiro de vez em quando. Não que o dinheiro vá resolver alguma coisa, sendo você sozinha, desorientada, nômade e tola. Mas cada um de nós é desorientado e tolo em algum lugar de si próprio e, às vezes, fortemente atraído pelo vagabundear e pelo respirar nada mais que a própria solidão, e então cada um de nós é capaz de se transferir para esse lugar para compreendê-la.”


p. 146
de Adriana para Fillipo
“Pode parecer esquisito, mas nós nos apegamos aos menores e mais esquisitos desejos, quando na verdade não desejamos nada.”




quarta-feira

três páginas de carta viram uma página de word





recebi algumas cartas que não dava para imprimir, por saírem ruins no scanner ou por estarem fotografadas – o que dificulta bastante a leitura na impressão. precisei redigitá-las para poder imprimir e carregar comigo e ler e rabiscar e recriar (coisas que ainda não fiz efetivamente).

quando percebi que as cartas digitadas não ocupavam nem metade do tamanho das cartas escritas à mão, achei curioso. é óbvio que as cartas digitadas sairiam menores, mais “condensadas”. sabemos. mas a reflexão que veio depois é que me deixou com vontade de escrever este texto.

pensei como a caligrafia também contém o tom da pessoa, a intenção, o peso da mão, o que a pessoa queria transmitir, sua personalidade, talvez. isso também é óbvio. lembro que uma vez fui fazer uma entrevista de emprego e tive de fazer uma redação “de próprio punho”, que seria analisada por uma especialista em caligrafias. amei. infelizmente, não soube meu diagnóstico completo, mas o pouco que me disseram me impressionou bastante.

voltando às cartas: a caligrafia. vi várias diferentes, muito diversas entre si, e muitas maneiras de escrever (linha ascendente, linha descendente, por exemplo). porém, quando coloquei essas cartas no word, foi muito chateante não poder colocar os outros detalhes – pingos expressivos nos “is”, voltinha na perna do “a” maiúsculo. pequenos desenhos. palavras tachadas. só consegui manter erros ortográficos porque desativei o corretor do word. sem falar que elas ficaram pequenininhas pequenininhas.

aí comecei a pensar de novo no computador, essa maravilha de meu deus. pensei em como ele condensa, simplifica, padroniza. em como a gente perde muita coisa com ele, muitas coisas sutis, que provavelmente nem nos dávamos conta de reparar quando recebíamos as nossas cartas. pelo menos eu não lembro nunca de ter pensado “nossa, que ‘r’ mais imponente”, “esse ‘ç’ tá meio caído”, ou “esse ‘a’ é a própria cara da satisfação” na época em que trocava cartas.

e agora me veio na cabeça que as letras no word, além de padronizarem o texto, deixam ele mais... sóbrio. e inexpressivo, pois sua forma não sugere nada. a não ser, é claro, se for escrito em comic sans – o que tira a credibilidade do texto e de seu autor instantaneamente. mas como decifrar de primeira uma arial, uma trebuchet? calibri? times new roman?

vim aqui jogar um pouco de conversa fora sobre esse lance das letras e pensar alto que possivelmente, logo mais, a caligrafia vai entrar em extinção. a particularidade de cada um vai ficar reservada às impressões digitais, e talvez nem o texto seja mais necessário para nos comunicarmos. black mirror feelings.





terça-feira

carta e-mail para Natasha Weissenborn



Natasha,
tudo bem?
finalmente.


desculpa a demora, mas o tempo vai passando rápido e a gente quer pensar em algo interessante para dizer para alguém que mostra um trabalho desses: sensível, belo. adorei o tumblr de vocês e espero que o interesse de ambas as partes tenha vida longa.

e fui fuçar o from me to you com afinco há pouco tempo, no começo do ano, porque precisava começar logo a mexer no meu projeto das cartas mas estava cheia de dúvidas e de preguiça. o tumblr me inspirou bastante, como sempre me inspiram essas manifestações das pessoas, das relações, dos tipos de comunicação que se estabelecem e com quais meios e objetos, enfim, enfim.

daí fiquei com vontade de te escrever para contar melhor do meu projeto das cartas e mandar o link do microclima, meu blog, em que estou colocando textos sobre o processo (aliás, já pelo permissão para publicar este email COM o link pro seu tumblr. risos).

a ideia é o seguinte: a partir de cartas que vou recolher por aí, pedindo e encontrando e ganhando de amigos, vou imaginar que, entre o sentimento e o “ímpeto” que faz alguém escrever a outra pessoa, e o texto corrido e lógico, em si, há um trajeto, um espaço, que mescla essas duas formas de linguagem que não pôde ser “transcrita” para a lógica, mas que ficou em um espaço reservado, suspenso, poético.

pois bem, eu vou entrar nesse espaço poético e tentar lê-lo, criá-lo, registrá-lo. e espero que daí nasçam poemas.

será que expliquei bem? sabe quando a gente fala tanto de uma coisa que ela perde o sentido? quando a gente repete uma palavra muitas vezes? então, explicar esse projeto já está meio assim, e é ótimo, porque novos sentidos vão nascendo. desta vez que te expliquei, por exemplo, resolvi não mandar o “email padrão de explicação do projeto” e escrever de outro jeito. gostei do resultado e espero que você também goste.

acho que é isso. aproveito para dizer que se você também tiver esse material e quiser me mandar, seria lindo. não precisa ser a carta em si, pode ser ela digitada/escaneada. e também pode proteger a privacidade com abreviações! hehe.

o microclima, blog em que coloco as minhas coisas escritas, é julianamato.blogspot.com. passe lá qualquer dia para um café.

bem, é isso. agora vou te adicionar lá no facebook. 

um beijo, obrigada e até já.


*


o tumblr da Natasha
as cartas da Natasha





quarta-feira




E quando resolvi para mim mesma, ontem, dia 14 de janeiro, que começaria a pensar com dedicação no livro de poemas sobre cartas, abri na página que havia parado a minha leitura de Reparação. Há outros dados nesse contexto: nesse mesmo dia eu reuni e imprimi tudo o que havia coletado e recebido até então, de amigos, colegas e desconhecidos, para ter ideia do que tinha nas mãos antes de começar. Fiquei um pouco desesperada ao perceber que não era muita coisa, e mais desesperada ainda ao perceber que era pouca coisa. Minha “campanha” atrás de cartas alheias não fora tão efetiva, isso eu sei, e o resultado foi um montinho pífio, camuflado pela grandeza de cada linha de cada carta, que cada pessoa resolveu abrir para mim. Para ser objetiva: apesar de ter um material bom, ele ainda é pouco.

Deixei tudo em cima da escrivaninha, peguei meu exemplar de Prezada senhora, prezado senhor (ou vice-versa, não lembro agora), fui pra cozinha fumar um cigarro (não gosto de fumar no quarto) e tentar me acalmar e pensar em uma solução. Pedir mais cartas para as pessoas? Talvez não seja o caso, já que tenho pressa e que definitivamente não consigo fazer esse pedido com objetividade e sem rodeios, pois ainda acho que é pedir muito a alguém. Outra solução seria escrever poemas sobre as cartas, poemas mais “contextuais”, e não um poema a partir de uma carta, assim, pontual. Desisti de pensar naquela hora, achando que essa solução apareceria – e aparecerá – se eu ignorasse o problema.

E então resolvi ler um pouco do Reparação, do Ian Mcewan, leitura que comecei nas férias e ainda não tinha avançado muito. Peguei o exemplar e sentei na cozinha para ler. Abri na 69, a página marcada, e me deparei com isto:



Apesar disso, quando colocou uma folha de papel na máquina de escrever não esqueceu o papel carbono. Pôs a data, a saudação, e logo deu início a um pedido de desculpas por ter agido “de modo desajeitado e estouvado”. Então parou. Deveria demonstrar algum sentimento? Nesse caso, em que nível?

“Se isso servir de desculpa, foi só recentemente que me dei conta de que fico um pouco atordoado na sua presença. Nunca antes entrei descalço na casa de uma pessoa. Só pode ser o calor!”

Como parecia superficial aquela frivolidade protetora. Ele parecia um tuberculoso fingindo que está apenas resfriado. Deu duas linhas em branco e reescreveu: “Sei que como desculpa é insuficiente, mas nos últimos tempos percebo que fico um pouco atordoado na sua presença. Que ideia foi essa a minha, de entrar descalço na sua casa? E quando foi que eu quebrei a beira de um vaso antigo antes?”. Repousou as mãos no teclado enquanto enfrentava o impulso de datilografar o nome dela outra vez. “Cee, acho que não é culpa do calor!” Agora o tom de humor fora substituído pelo melodrama, ou pelo queixume. As perguntas retóricas tinham algo de repulsivo; o ponto de exclamação era o primeiro recurso daqueles que gritam para se exprimir com mais clareza. Ele só perdoava essa pontuação nas cartas de sua mãe, onde cinco exclamações enfileiradas indicavam uma piada das boas. Ele girou o tambor da máquina e datilografou um “x”. “Cee, acho que a culpa não é do calor.” Agora o humor desaparecera, e um toque de autocomiseração se insinuara. Seria necessário recolocar o ponto de exclamação. Claramente, a função do tal ponto não era apenas a de aumentar o volume.

Robbie ficou mais quinze minutos mexendo no rascunho e por fim colocou folhas em branco na máquina e passou-o a limpo. As linhas cruciais ficaram assim: “Você poderia pensar que enlouqueci – por entrar na sua casa descalço, ou por quebrar seu vaso antigo. A verdade é que me sinto um pouco tonto e aparvalhado na sua presença, Cee, e acho que a culpa não é do calor! Você me perdoa? Robbie”. Então, após alguns momentos de devaneio, com a cadeira inclinada para trás, em que ficou a pensar na página em que sua Anatomia tendia a se abrir nos últimos dias, recolocou a cadeira no lugar e, antes que conseguisse se conter, datilografou: “Em meus sonhos, beijo tua boceta, tua boceta úmida. Em meus pensamentos, passo o dia inteiro fazendo amor contigo”.

Pronto – estragara tudo. A carta estava estragada. Tirou a folha da máquina, colocou-a de lado e escreveu sua carta a mão, certo de que o toque pessoal era adequado à ocasião. Consultou o relógio e se lembrou de que antes de sair devia engraxar os sapatos. Levantou da cadeira com cuidado para não dar uma cabeçada no caibro.



Um lado mais sensível meu, sorrindo, diz que só pode ser um sinal.



terça-feira

página nova



Hoje eu resolvi que depois do trabalho vou direto pra casa e vou imprimir todas as correspondências que consegui juntar depois de sair pedindo cartas para alguns conhecidos – e desconhecidos que vieram me procurar sabendo da minha tarefa (obrigada, vocês!). a ideia era fazer isso antes de minha viagem de férias e levar os papéis comigo para andar com eles por aí, lendo e relendo. mas as ideias às vezes não dão certo, e diante de tantas outras tarefas de fim de ano deixei as cartas quietinhas para me concentrar apenas em descansar a cabeça.

no entanto, uma informação reacendeu a zona na minha cabeça que estava tão descansada: tenho até 10 de março para entregar meu livro pronto. não ousei calcular em números quantos dias terei para produzir esses poemas – há coisas que é melhor não saber --, mas mesmo assim sei que é pouco. enfim, hoje é dia de começar.

também é dia de resgatar escritos e voltar àqueles livros cheios de referências que estão abandonados há algum tempo. faz tempo que não me dedico a escrever poemas ou literatura ou o que seja e não sei ao certo o motivo, o que sei é que houve um apego imenso à vida prática nesses meses, e tudo o mais foi deixado de lado.

agora, que eu tenho um comprometimento com esse projeto, é hora de encontrar tempo, espaço e equilíbrio pra ele surgir. eu sei que ele vai surgir. e é hora também de deixar o medo e a (auto)crítica quietos para conseguir encontrar esse tom de voz e esse caminho para percorrer.

e também sei que esse último parágrafo soa super piegas, mas o que esperar de uma pobre coitada que se arrepia ouvindo Shania Twain cantando com o Elton John?



como diria a baiana mais minha amiga que existe, umbora.

e se alguém ainda quiser me ajudar com cartas, por favor, agradeço imenso.


sábado

Diário das cartas – já se passaram algumas semanas, talvez meses





Página um

O projeto das cartas está recomeçando. Ele ganhou um edital, junto com as Iaras, e vai sair em uma coleção de poesia no ano que vem. O que estava meio de lado, totalmente no plano dos planos, vai começar a se mexer. Como fazê-lo se mexer? Como tirá-lo do plano dos planos?

O processo já começou meio difícil porque eu, juliana, tenho receio de incomodar as pessoas. Sempre tenho. Faço rodeios demais quando preciso pedir algo, e desta vez não foi diferente. Mas a partir de agora tenho de contar com todo mundo que quiser e puder me ajudar. Então comecei selecionando algumas pessoas conhecidas, de diferentes perfis, e escrevi a todas elas contando do projeto, da velha ideia nova. Algumas pessoas se empolgaram e logo mandaram diversas cartas, muitos materiais. Outras pessoas simplesmente abandonaram a conversa. Outras ainda se empolgaram bastante e disseram-se dispostas a ajudar, mas não foram adiante.

E estando totalmente dependente desses feedbacks tive de ignorar uma série de questões mais “pessoais”, mais profundas, e me ater ao essencial. Quem quiser compartilhar, quem quiser abrir isso para mim, dividir isso comigo, que venha.

Digo isso porque, ao receber alguns textos desses, pessoais, tão íntimos, comecei a me sentir uma intrusa, uma pessoa ousada demais, sem limites de aproximação. Assim: “Juliana, onde já se viu sair pedindo para as pessoas lhe enviarem cartas? Que direito você acha que tem de abrir essas caixas, esses baús, gavetas, alheios?”. E eu mesma respondia: “Juliana, você não tem o direito de fazer isso”.

Mas aí conversando com pessoas sobre o assunto, muitas me ajudaram a perceber que é bem simples. Quem quiser, manda. O projeto precisa começar a acontecer. E é um livro. E definitivamente NÃO depende só de mim, o que representa um desafio enorme e novo entre todos os outros processos que passei.

Essa é a primeira página do diário que vou começar a registrar aqui para contar do processo do livro. Gosto de pensar e registrar processos, e no meio de tanta gente abrindo um pouco da vida para mim, acho que o mínimo que posso fazer é abrir a minha.


*


E já vou começar a página dois, porque essa semana aconteceu algo inesperado. Uma pessoa para quem eu tinha mandado a mensagem das cartas me escreveu, perguntando se eu ainda precisava delas. Respondi que CLARO (não recebi a enxurrada de cartas que imaginava receber  num primeiro momento). Fomos tomar um suco (dia muito quente para um café) para que essa pessoa me entregar as cartas, e fiquei surpresa e sem reação quando ela tirou da mochila um pacote grande, cheio delas. “Fique com todas, e depois faça o que quiser. Não preciso mais.”

Arregalei os olhos e disse que eu iria guardar as cartas para sempre, porque essa pessoa poderia querer as cartas de volta, arrependendo-se de ter deixado tudo nas mãos de uma pessoa qualquer. Disse isso e mais: “Eu mesma joguei fora quase todas as minhas cartas, QUASE TODAS, e me arrependo imensamente de não ter esses textos comigo”. A pessoa insistiu, e eu disse que tudo bem (mas nunca vou jogar as suas cartas fora, saiba).

De início me senti muito feliz, porque chegara às minhas mãos mais um material superestimulante para começar. Mas depois me senti mal. Aquele pensamento de parágrafos atrás voltou. “Quem você acha que é para ficar vasculhando assim na vida alheia?” Mas aí a resposta veio rápida, papo encerrado: “eu sou alguém que pediu licença e teve permissão”.

Aproveito para agradecer a generosidade de todos que mandaram suas cartas. Por confiarem em mim, meio-que cegamente. Por dividir.

(Aproveito para reiterar que AINDA estou recebendo cartas de quem quiser mandar.)


*


E já emendo a página três do diário, porque comecei a ler nesta noite o material que recebi desde que comecei a busca.

Quando comecei a ir atrás do material, disse que poderia ser QUALQUER carta, com QUALQUER tema. Sabia que muitas delas seriam de amor. Afinal, todas as cartas de amor são. Chegaram por aqui alguns textos lindos, singelos, em que as pessoas expressam sentimentos bonitos, grandiosos. E nessa terceira “página” devo dizer que é emocionante ver o quanto as pessoas podem ser carinhosas entre si, e dedicarem palavras lindas umas às outras. Por mais que pareça clichê essa frase, e por mais que, óbvio, as pessoas tenham esses sentimentos lindos, vivam sentimentos “sublimes”. Enfim, como é bonito ver a expressão disso, esses verdadeiros encontros. Uma fé.












quarta-feira









para ler JEZEBEL
um trabalho meu em parceria
com Mariana Coan
é só baixar:





quinta-feira

aula de roteiro




o círculo
a fila de personagens
(sem pai)
e a grande jornada
da reconciliação

(dez unhas roídas na carne
uma vontade
de estar
na playland)

personagens que ainda não sabem falar
muitos personagens absurdos demais



*



estou em uma sala
todos falam de Álvaro
um personagem misterioso

e de seu pai, claro
  
perdi a memória esses dias
tampouco sei quem é Álvaro
tampouco conheço sua jornada
absurda

ou essas pessoas
em círculos
fictícios



*



na aula de roteiro
faço exercícios pélvicos
vejo a parede branca





segunda-feira

depois de ler a autoestrada do sul, do cortázar, escrevi esta série de poemas para a página um tal julio cortázar, comemorativa do centenário do mestre.



I

eu vou encontrar você
dia a dia

parada na mesma ponte
no mesmo quarto
na mesma casa
na mesma estrada

(vento nos cabelos)

segurando uma carcaça


II

entre meus dedos
você, a estrada
e o vento

a sua mão
(toca a minha, rapidamente
e se afasta)

a sua mão
um mapa ao contrário
uma história ao contrário
uma perda, uma pedra



III

o perfil cansado a curva

dos seus lábios:
não ao movimento

ou uma borboleta

muito branca
muito breve

eu vou procurar você

todas as horas
mesmo que o veneno
mesmo que linhas a lápis
num caderno