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crítica babona

Cleide, Eló e as pêras, a poética da delicadeza

A montagem Cleide, Eló e as pêras, em cartaz no Teatro Augusta até dia 25 de outubro, traz à tona o mais nobre dos sentimentos humanos em várias de suas facetas. Com um elenco bem preparado, em perfeita sintonia e bem dirigido, o texto ganha a devida magnitude em um espaço de 3 metros por 2 e com apenas algumas pêras no chão.

O texto de Gero Camilo, que conta encontros e desencontros de pessoas deslumbradas e de atitudes desmedidas pelo amor, é dividido em três partes: um monólogo inicial, de Isadora, uma mulher que narra sua paixão arrebatadora e intensa por um homem chamado Eló – a sensação da cidade, um boêmio – bem como essa paixão se destruiu; depois entra Ernesto, um vigia de uma fábrica que conta sua história aventureira, sublime, intensa, por uma mulher – operária da fábrica – chamada Cleide; finalizando o enredo, surge um encontro dos dois atores em cena, como Eló e Cleide, alvo da paixão das personagens anteriores, em um diálogo surpreso, em um tempo que parece suspenso, numa tentativa frustrada de assimilação e consolidação do amor.
Paula Cohen, em atuação intensa, brilhante, faz Isadora e Cleide. Na primeira cena, Isadora parece contar sua história diante de um júri, séria, compenetrada, explicando-se a todo momento, resignada, dolorida. Logo depois assume maravilhosamente o papel de Cleide, a mulher voluptuosa, quente, sedutora, descrita por Ernesto. Gero Camilo também expõe em cena tudo o que o texto propõe. E mais. O vigia da fábrica do interior narra, como se fosse para amigos chegados, com detalhes, sua breve história com Cleide e tudo o que isso provocou. Um ator de um metro e meio, magro, explora o corpo de maneira sábia e ganha o espaço todo, provoca todas as sensações possíveis que permitem o texto. Sinestésico, tátil.
É uma peça que transita entre a essencialidade e universalidade do amor. Provoca ao público uma identificação descomunal, pela essência e intensidade das paixões, e um afastamento sombrio, porque, infelizmente, estamos acostumados a jogar e matar essas relações dentro de nós.

O espaço cênico, como citado acima, tem cerca de 3x2 metros. A platéia, em volta, é composta de, no máximo, 60 pessoas, e tudo isso colabora para criar o clima intimista e próximo, um clima acolhedor. A falta de cenário – só há algumas pêras no chão - também colabora para essa aproximação. E as pêras, do título primeiramente estranho, tomam conta do texto e das cenas não somente como objetos cênicos. Elas são personagens. E, além disso, provocam, nos espectadores mais sensíveis, cheiros e cores.

Todo esse conjunto harmoniosamente construído – texto, atores e atuações, espaço – celebram a arte dos encontros, exploram a delicadeza, a poesia, a desmesura e o grito desesperado pelo que podia ter sido. O que também pode ser notado na peça Aldeotas, do mesmo dramaturgo, de igual intensidade. Mas dessa peça vou falar em outra crítica emocionada.

A peça toda é um grito, um apelo, até mesmo nas pausas. Não há espaço para o silêncio na eloqüência das paixões.

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