domingo

DESNUDOS


José Manuel Lázaro, o Gringo. ph. Divulgação.

Uma questão pertinente que sempre os fazedores de arte devem se cobrar é a função e o propósito de suas obras. Seja um filme, uma tela, fotografia, uma peça de teatro. Para que nada fique solto no ar e que as identificações com o público surjam – provocando discussão e uma possível mudança de comportamento – por mais hermética que seja a obra, tanto no âmbito pessoal, como no social (esses dois se separam?). A peça Topografia de um Desnudo, do chileno Jorge Díaz, em cartaz no Teatro Fábrica com a companhia Conexión Latina de Teatro explora esse tema e discute como as relações de poder afetam ações sociais, e como tudo o que enxergamos pode não passar de manipulação e desprezo de parte das instituições mantenedoras e que consolidam o poder.
Um tema insistente na cabeça de quem tem o mínimo de preocupação e percepção com a sociedade, que toca um pouco em todas as perspectivas, principalmente a do mais fraco, que a sociedade insiste não enxergar. Mas, como o óbvio precisa ser dito, temos aqui uma montagem original e pertinente, transpondo para acontecimentos pontuais de nossa história, que também podem ter acontecido em qualquer parte, qualquer país em que haja desigualdade e violência.
Retomando o incidente da década de 1960, no Rio de Janeiro: uma ‘operação mata-mendigos’. Durante meses foram encontrados corpos em rios, com vestígios de tortura. Na época, desestabilizou o governo de Carlos Lacerda. Hoje em dia, são poucas as pessoas que se lembram ou sabem desse acontecimento, que flagrou a crueldade das instituições e o despreparo do poder público e da sociedade em lidar com questões do tipo.
O enredo trata da morte de um mendigo, que continua falando depois de morto para que seja possível identificar quem e por quê. Nisso são reveladas versões dos fatos e suas conseqüências. Com a exploração de flashbacks o enredo não-linear, além de demonstrar a manipulação dos fatos, revela o caráter atemporal dos acontecimentos e questões sociais que imperam na consciência coletiva desde o início e imposição do capitalismo.
Ao decorrer do enredo é revelado que Gringo, o mendigo, foi morto assim como muitos mendigos ainda o seriam nos dias posteriores: pela polícia, para que deixassem de habitar o lixão, que seria ‘livre da mendicância, promiscuidade, miséria e corrupção’ para que, em seu lugar fosse construído um condomínio de alto-padrão.
Com um elenco composto de atores bem preparados e conectados, que exploram conscientemente os corpos na construção de seus personagens, a montagem ganha uma atmosfera única, expressiva, que faz aflorar o aspecto sensorial, junto com projeções de imagens e sons. O grupo é composto de atores de diversas nacionalidades latino-americanas, e os diversos sotaques presentes marcam o aspecto universal e de irmandade dessas nações que convivem com histórias e realidades tão parecidas.
No espaço, a Sala 2 do Teatro Fábrica, o cenário é construído apenas com algumas caixas de papelão colocada de modo que a movimentação fique bem restrita, seja pouca, mínima. Para instigar a imaginação do espectador ou representar o quão as pessoas parecem, são, ou sentem-se acuadas diante de tais acontecimentos.Assim, a arte cumpre seu papel de criticar e enxergar a sociedade, de instigar as populações e abrir debates. Topografia de um Desnudo vai fundo e insiste nisso, o que é bastante difícil na sociedade atual do espetáculo, do lucro e da exploração, que cria pouco compromisso com as questões sociais e apela para discursos eloqüentes, unilaterais e demagogos.

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Ficha Técnica
Texto: Jorge Díaz
Tradução: Renata Palottini
Direção: Hugo Villavicenzio
Elenco: Thaís Junqueira, Catalina Bigliani, Sabrina Santander, José Manuel Lázaro, Alexandre Soares, Carlos Sobrinho, Rafael Steinhauser, Virgínia Iglesias, Natalya Clua, Felipe Mello, Leo Stefanini, Lilián CastanyoDuração: 90 minutos

Serviço: Teatro Fábrica São Paulo, sala 2. Sextas-feiras, 21h30. Até 14 de dezembro. R$ 20.

Um comentário:

juliana disse...

Juuuuu!!!
Vc é uma excelente cia! A melhor..inclusive eu queria te avisar pra marcar um dia na sua agenda por semana pra gte tomar cerveja! Precisooo...

Pq será que eu quero ver tdas as peças que vc escreve aqui?? vc é boa em argumentos...ahahha...com cerveja então acho q vc convence o mundo! ahahah

Hj tem estréia da Clarah!! eu vou...vamooo???