quinta-feira

CRÍTICA



ABO = FÊMEA

Partindo de conceitos e histórias mitológicas afrobrasileiras e explorando a fantasia e realidade inerentes à condição feminina, a peça ABO – A Travessia de Ilana constrói e entrelaça histórias de quatro mulheres em busca de mudanças de vida. Começam solitárias e encontram-se ao longo da peça, construindo uma relação de cumplicidade permeada por descobertas e situações que põem à prova a força e a união. O texto é de Rui Xavier, a direção de Ralph Maizza e o elenco, composto de cinco mulheres e um homem, forma a Companhia Excessiva de Teatro.

Por tratar-se de um texto extremamente poético e dramático, cheio de referências e que explora muitos caminhos, a tendência natural seria a monotonia, principalmente tendo em vista o espaço cênico: o Satyros 2. Com apenas uma mesa no canto esquerdo do palco – utilizada para intervenções reflexivas a respeito das personagens, do mundo, da vida – toda a travessia é percorrida e vista através das descrições. Lembra Shakespeare. Propõe ao espectador uma posição ativa, provocando-o e fazendo com que ele busque, construa os cenários. Essa é uma grande vantagem do teatro. Além disso, um elenco consciente de tudo o que está acontecendo e profundamente entregue garantem a agilidade e o interesse pela travessia.

Difícil manter um clima de situação-limite, de drama e desespero. As atrizes o fazem com maestria e emprestam seus corpos a toda poesia e ação apresentada pelo texto.

Entrecortando a história principal, surgem figuras curiosas, igualmente fortes no que tange às suas possibilidades. São cenas maravilhosamente conduzidas que servem quase como um suspiro, uma pausa na aflição que domina a peça e, contraditoriamente, faz as quatro mulheres encararem a realidade mais crua. Realidade essa que revela uma reflexão importante sobre a condição feminina: se por um lado é possível, através do corpo, conseguir quase tudo o que se quer, por outro – o lado dos sentimentos, das emoções, dos sentidos – é possível experimentar o abandono, o desprezo, a crueldade, a indiferença e tantas outras questões que envolvem a situação da mulher e partem, por vezes, das próprias mulheres, dos homens e de uma sociedade essencialmente patriarcal que ainda não se libertou de suas raízes.

E assim, trazendo para um plano real os mitos dos orixás, das orixás, é também explorada a esperança, a força de uma condição que se enxerga e não concorda em submeter-se. E a busca incansável confunde-se com a eternidade e atemporalidade dos mitos.

Se o conteúdo, por si, já é atraente, a forma surpreende ainda mais. Como dito acima, a direção de Ralph Maizza não admite cenários montados e grandiosos. O complemento vem da trilha sonora, que se encaixa nas cenas misturando linguagens e contextos – o caráter tradicional do mito e a novidade/ruptura, representadas por canções de Elvis Presley, Cartola e Laura Veirs – , criando uma atmosfera nova e bem sucedida.

Há somente uma coisa que quebra completamente o ritmo da peça, arrancando até gargalhadas da platéia: a exploração de um ‘efeito especial’, ventiladores que fazem tanto barulho ao serem ligados que fica impossível ouvir as personagens. É uma das cenas mais poéticas da peça, muito prejudicada por essa ‘falha técnica’.

ABO – A Travessia de Ilana é uma peça envolvente, sinestésica, intrigante. Que abusa da expressão e do corpo, e exige algo além da ‘atuação’ dos atores. Exige sensibilidade e entrega incondicionais, a crença. E exige isso também dos espectadores, apresentando um tipo de vivência que não se vê muito por aí.

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SERVIÇO
Texto: Rui Xavier
Direção e encenação: Ralph Maizza
Elenco: Didio Perini, Flávia Tápias, Mariana Blanski, Patrícia Kodjaian, Samya Enes e Vanessa Lopes
Quando: terças, 21h30
Quanto: R$ 20, R$10 (meia entrada), R$5 oficineiros dos Satyros e moradores da Praça Roosevelt
Lotação: 50 lugares
Duração: 90 minutos

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