29 de novembro de 2007

ARGONAUTA


Boris Bilinsky, City Art work for Metropolis c.1926-7

não há mais
tempo
- e bem que podia
ser
você
reconstruindo o chão
de azul
de tudo

de teto e me cobre

25 de novembro de 2007

BAR

COMPANHIA

Fizemos companhia para um senhor durante duas horas.

Não sabíamos, mas fizemos companhia para um homem durante umas duas horas.

Nem suspeitávamos, e fomos companheiríssimas de um homem durante aproximadamente duas horas e duas cervejas.

Sequer queríamos, entretanto um homem foi nosso companheiro durante quase três horas.

Nem percebemos.


Só ficamos sabendo quando, de repente, ele sussurrou perto da mesa ‘o papo de vocês duas está uma delícia’. Ele foi embora e depois chegou o garçom com mais uma cerveja gelada, dizendo que mandaram entregar na nossa mesa.

Não é possível, ele ouviu tudo. Esse cara agora me conhece mais que minha mãe.

22 de novembro de 2007

PAUSA PARA REFLEXÕES

SOBRE SOMATIZAR

O anterior despertava o máximo da rinite alérgica. Com o de depois, ela teve crises de gastrite. Do próximo, ela espera encarecidamente que tudo seja flores

*

SOBRE SUPERAR OS LIMITES
Quem quer uma carona?
ou
Você me entendeu bem? Então repete

*

SOBRE ESTAR FELIZ PRA CARALHO
Lálálálálálá

*

SOBRE MAQUIAVEL
Os ‘sins’ importam mais que os fins

*

SOBRE CASSINO ROYALE
Eva Green

*

SOBRE CAETANO
Lindo demais

*

SOBRE TEATRO
Parece que sim.

sempre


hilda hilst - ph.

então eu conheci esse texto, de uma das escritoras mais fantásticas do mundo mundo vasto mundo. quero dividir. ela foi escrita para o jornal 'correio popular', de Campinas, em 1993. boa leitura.

TÔ SÓ

Vamo brincá de ficá bestando e fazê um cafuné no outro e sonhá que a gente enricô e fomos todos morar nos Alpes Suíços e tamo lá só enchendo a cara e só zoiando? Vamo brincá que o Brasil deu certo e que todo mundo tá mijando a céu aberto, num festival de povão e dotô? Vamo brincá que a peste passô, que o HIV foi bombardeado com beagacês, e que tá todo mundo de novo namorando? Vamo brincá de morrê, porque a gente não morre mais e tamo sentindo saudade até de adoecê? E há escola e comida pra todos e há dentes na boca das gentes e dentes a mais, até nos pentes? E que os humanos não comem mais os animais, e há leões lambendo os pés dos bebês e leoas babás? E que a alma é de uma terceira matéria, uma quântica quimera, e alguém lá no céu descobriu que a gente não vai mais pro beleléu? E que não há mais carros, só asas e barcos, e que a poesia viceja e grassa como grama (como diz o abade), e é porreta ser poeta no Planeta? Vamo brincá

de teta
de azul
de berimbau
de doutora em letras?

E de luar? Que é aquilo de vestir um véu todo irisado e rodar, rodar...
Vamo brincá de pinel? Que é isso de ficá loco e cortá a garganta dos otro?
Vamo brincá de ninho? E de poesia de amor?

nave
ave
moinho
e tudo mais serei
para que seja leve
meu passo
em vosso caminho.*

Vamo brincá de autista? Que é isso de se fechá no mundão de gente e nunca mais ser cronista? Bom-dia, leitor. Tô brincando de ilha.

HILDA HILST

12 de novembro de 2007

carta aberta ao meu estômago


Desculpa, estômago. Vou começar a carta assim porque isso é o mínimo, o mais importante. E, como te conheço bem, sei que você vai dizer: desculpa não! Você não deve desculpas a mim, e sim a você mesma. Sei também, estômago, que você é um estômago excelente, que NUNCA tinha me dado trabalho antes, nem dor, nem nada. E eu sei que você vai dizer (meudeus, como te conheço) ‘eu não estou te dando trabalho, nem dor, nem nada. É você mesma quem está fazendo isso. Ok. Tenho abusado de você. E o mais natural é você reclamar. Já sei tudo o que NÃO posso fazer para que você fique sempre bem, sempre soube, mas você sabe, sou fraca. Fraquinha. Fracota. E adoro cerveja. E cigarro. Mas, sabes, estômago, eu não fumo desde hoje de manhã e tomei bode de cigarro. Espero que seja um bode eterno. Estômago, eu prometo que vou cuidar mais de você, como você sempre cuidou de mim ao longo dessa jornada. E você, prometa que vai ficar bonzinho. Por enquanto, omeprazol, buscopan e cápsulas naturaizinhas de alcachofra, frutas, água, e purê de mandioquinha.

p.s.: Diga ao fígado e ao intestino – eles não querem nem olhar na minha cara – que vou me esforçar para cuidar bem deles também. Lembre-os que eu sou desajeitada. Mas que meu amor e consideração são enormes.

Um abraço, amigo.

10 de novembro de 2007

*

no desajeitado ir
embora
das suas mãos
no último sorriso

(e mais)
desesperado
percebi Billie
fora e dentro
percebi algo

percebi tudo:

um raio cai
sim
duas vezes
no mesmo lugar

9 de novembro de 2007

ela um buraco



Ela não tem esse direito. Depois de tudo dito, de tanto dito ela pensa querer mesmo desistir. Não tem força para nada ela, nem para desistir. Resistir? Pior. Pensa que será tempo perdido demais, desgaste físicoquímico demais. Não há o que fazer, pois, diante de abismos tamanhos. Abismos? Sim. Muros incompreensíveis. E é por tão pouco, a força é pouca, a voz não sai. Nem as lágrimas. Está parecendo uma esponja seca, uma casa de madeira velha, um abandono caminhando. Se deixando abandonar diante do abraço quente que é gente, que sofre igual e aceita. Ela é um buraco, e acredita que entregarse a uma existência confusa é a saída. Engano. Porque não há saída para as urgências, e as urgências são sempre.

8 de novembro de 2007

CRÍTICA



ABO = FÊMEA

Partindo de conceitos e histórias mitológicas afrobrasileiras e explorando a fantasia e realidade inerentes à condição feminina, a peça ABO – A Travessia de Ilana constrói e entrelaça histórias de quatro mulheres em busca de mudanças de vida. Começam solitárias e encontram-se ao longo da peça, construindo uma relação de cumplicidade permeada por descobertas e situações que põem à prova a força e a união. O texto é de Rui Xavier, a direção de Ralph Maizza e o elenco, composto de cinco mulheres e um homem, forma a Companhia Excessiva de Teatro.

Por tratar-se de um texto extremamente poético e dramático, cheio de referências e que explora muitos caminhos, a tendência natural seria a monotonia, principalmente tendo em vista o espaço cênico: o Satyros 2. Com apenas uma mesa no canto esquerdo do palco – utilizada para intervenções reflexivas a respeito das personagens, do mundo, da vida – toda a travessia é percorrida e vista através das descrições. Lembra Shakespeare. Propõe ao espectador uma posição ativa, provocando-o e fazendo com que ele busque, construa os cenários. Essa é uma grande vantagem do teatro. Além disso, um elenco consciente de tudo o que está acontecendo e profundamente entregue garantem a agilidade e o interesse pela travessia.

Difícil manter um clima de situação-limite, de drama e desespero. As atrizes o fazem com maestria e emprestam seus corpos a toda poesia e ação apresentada pelo texto.

Entrecortando a história principal, surgem figuras curiosas, igualmente fortes no que tange às suas possibilidades. São cenas maravilhosamente conduzidas que servem quase como um suspiro, uma pausa na aflição que domina a peça e, contraditoriamente, faz as quatro mulheres encararem a realidade mais crua. Realidade essa que revela uma reflexão importante sobre a condição feminina: se por um lado é possível, através do corpo, conseguir quase tudo o que se quer, por outro – o lado dos sentimentos, das emoções, dos sentidos – é possível experimentar o abandono, o desprezo, a crueldade, a indiferença e tantas outras questões que envolvem a situação da mulher e partem, por vezes, das próprias mulheres, dos homens e de uma sociedade essencialmente patriarcal que ainda não se libertou de suas raízes.

E assim, trazendo para um plano real os mitos dos orixás, das orixás, é também explorada a esperança, a força de uma condição que se enxerga e não concorda em submeter-se. E a busca incansável confunde-se com a eternidade e atemporalidade dos mitos.

Se o conteúdo, por si, já é atraente, a forma surpreende ainda mais. Como dito acima, a direção de Ralph Maizza não admite cenários montados e grandiosos. O complemento vem da trilha sonora, que se encaixa nas cenas misturando linguagens e contextos – o caráter tradicional do mito e a novidade/ruptura, representadas por canções de Elvis Presley, Cartola e Laura Veirs – , criando uma atmosfera nova e bem sucedida.

Há somente uma coisa que quebra completamente o ritmo da peça, arrancando até gargalhadas da platéia: a exploração de um ‘efeito especial’, ventiladores que fazem tanto barulho ao serem ligados que fica impossível ouvir as personagens. É uma das cenas mais poéticas da peça, muito prejudicada por essa ‘falha técnica’.

ABO – A Travessia de Ilana é uma peça envolvente, sinestésica, intrigante. Que abusa da expressão e do corpo, e exige algo além da ‘atuação’ dos atores. Exige sensibilidade e entrega incondicionais, a crença. E exige isso também dos espectadores, apresentando um tipo de vivência que não se vê muito por aí.

*

SERVIÇO
Texto: Rui Xavier
Direção e encenação: Ralph Maizza
Elenco: Didio Perini, Flávia Tápias, Mariana Blanski, Patrícia Kodjaian, Samya Enes e Vanessa Lopes
Quando: terças, 21h30
Quanto: R$ 20, R$10 (meia entrada), R$5 oficineiros dos Satyros e moradores da Praça Roosevelt
Lotação: 50 lugares
Duração: 90 minutos

Estranha forma de vida


Yoko Ono - 'Fly'

Olhares, oh.
As pernas bambeando na frente dos olhos fortes. Lembra?
Pára de me olhar com esses olhos fortes!
Tudo não passa de sinal para chegar a algum ponto preciso, chegar ao risco.
Presente. Suspenso. Suspendo.
As pernas bambas e eu fingindo uma força, desesperadamente
fingindo uma pose, fingindo acreditar e não
Mulher, você não podia ter feito aquilo, você não devia.
Mas eu sei que entrar no jogo é fácil, e convido.
Já falei coisas demais, fico melhor aqui, sozinha.
Nada. Um silêncio de rua.
E o desajeito.

*

O pior é saber que não virá nunca.

*
Ando cutucando demais as feridas, estou cheia delas. Três casquinhas nos joelhos. Roxos. Pequenos cortes...
Adoro isso tudo.

5 de novembro de 2007

verbo


Anna Magnani em Belíssima, de Luchino Visconti
eis aqui a faca
e o beijo

como esperasse


Marcel Duchamp
‘Oh, abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.’
Carlos Drummond de Andrade

como se estivesse
e não bastasse:
palavras não duram
mais que noites

era como se quisesse
assim atento
cutucar rastros
de dentro

como pesasse
impermitível
em tudo o que
pudesse ser
abalável

era como se proibisse
velando todo o antes
fiel e preso, e não,
e imóvel e atento

...

talvez, do desacordo
possa nascer, leve,
qualquer coisa
além da memória