sábado

NOVAS DIRETRIZES EM TEMPOS DE PAZ



ph: divulgação CCSP.

Desafio

É um desafio manter, no teatro, o ritmo e a profundidade de um texto que funcione, por completo, na base do discurso, em que as ações são os diálogos movidos por lembranças e estórias. A montagem de ‘Novas Diretrizes em Tempos de Paz’, de Bosco Brasil, em cartaz no Centro Cultural São Paulo, supera essa dificuldade a propõe uma reflexão atemporal, com base em acontecimentos representativos e característicos da história do Brasil. Com direção de Fernando Couto e Ari Nóbrega e Olavo de Castro no elenco, a peça revela a precisão das pausas num contexto aflitivo e sem esperança.


A história se passa dentro de uma sala da alfândega no Rio de Janeiro, em abril de 1945. Narra a história de um polonês refugiado no Brasil que tenta obter seu visto de entrada e permanência no país, mas é, de início, impedido pela burocracia, cujas leis ainda não determinaram as novas diretrizes para tempos de paz. Essa burocracia é representada pelo alfandegário, um ex-torturador da polícia de Vargas. A partir de então, trava-se um diálogo comovente: o polonês precisa fazer o funcionário chorar para conseguir o carimbo que determinará seu futuro. Aparecem lembranças, medos e esperanças numa reflexão que vai além das mazelas da guerra, partindo para uma investigação do homem e suas fraquezas.


O espaço cênico – Sala Ademar Guerra do Centro Cultural São Paulo – colabora para criar a atmosfera rígida e tensa da repartição pública. O cenário é simples, caricato do que se imagina de repartições públicas, madeira escura, mobília mal conservada. Uma fotografia de Vargas contextualizando o tempo da ação. Criando também essa atmosfera tétrica, a iluminação adaptada para o espaço é precisa e destaca expressões de aflição, caracterizando bem o desafio proposto à personagem.


A atuação se desenvolve de maneira intimista, natural, verdadeira. Os atores, em perfeita sintonia e comunhão, não se valem de sotaques forçados (no caso do polonês) nem de rigidez na entonação (caso do funcionário), substituída pela firmeza de quem está lá apenas para cumprir sua função. Há uma superação de limites nessas interpretações, criadas com todo o cuidado e atenção merecidas, pois pode-se cair facilmente no exagero diante da profundidade do texto.

Vinda para celebrar o teatro, a montagem é eloqüente e delicada, atemporal, traz reflexões fundamentais sobre as condições e contradições humanas. Vale a pena conferir, celebrar junto.

*

texto: Bosco Brasil - direção: Fernando Couto - elenco: Olavo de Castro e Ari Nóbrega.

Serviço: terças e quartas às 21h - R$15,00 - preço popular: todos os dias até 20% da lotação (R$1,90) - Espaço Cênico Ademar Guerra. Centro Cultural São Paulo. 60 min. 14 anos. Drama.

Nenhum comentário: