quinta-feira

Rosa de Vidro


ph: Victória Camargo e Julia Bobrow.

Limite

Baseada em ‘À Margem da Vida’, de Tenessee Williams, a peça Rosa de Vidro, de João Fábio Cabral, explora o desespero e a situação-limite em algumas de suas facetas. O autor parte da vida e obra de Williams para relatar a vida de sua irmã, Rose, que viveu muito tempo em sanatórios e sofreu, na década de 1940, uma lobotomia pré-frontal. Com atores preparados e profundos o bastante para dar carga à seriedade e poesia do texto e com um cenário bastante simbólico, a peça alcança um tom nostálgico típico de reencontros.


Tom Wingfield (Tales Penteado) faz uma visita à Rose (Julia Bobrow), sua irmã, num sanatório, e começa a recordar a época em que vivia obcecado com a idéia de sair de casa, conhecer o mundo e libertar-se da energia opressora e neurótica da mãe (Victória Camargo) – universo retratado na peça de Tenessee Williams. Com essas recordações, e seguindo a mesma linha do texto de Williams – a personagem principal como narradora da cena e comentarista, Tom busca, apaixonadamente, compreender o que se passava na cabeça de sua irmã, uma menina que vivia num mundo próprio, à parte, formado por estatuazinhas de bichos de vidro, um cachorro e a dificuldade imensa de integração social.


E é graças a esses problemas com a irmã que a mãe de Tom se angustia e pressiona o filho para que ele faça alguma coisa, cuide da casa e da família ao invés de cair no mundo e escrever poemas. Isso tudo através de discussões violentas. Victória Camargo está entregue, verdadeira e firme no papel, que representa no contexto da peça a gravidade, o máximo da situação-limite. O mesmo transparece Tales Penteado, que vive os dois lados da moeda: a vontade de sair da casa e o amor e zelo por sua irmã. Julia, no entanto, parece às vezes perder Rose, e surgem algumas falas mais mecânicas, sem entonação.


Então entra na história Jim, colega de trabalho que Tom, a pedido de sua mãe, leva para um jantar, com o objetivo de apresentar a Rose e ‘marcar a data do casamento’. Representado por Ricardo Gelli, Jim inaugura o momento de maior lucidez e leveza da peça. É ele que desperta em Rose sentimentos novos, fazendo-a abrir-se para a vida e vendo-a não como uma louca, mas como uma pessoa sensível e encantadora. A linguagem adotada por Gelli também é diferente da linguagem geral da peça, mais leve, fluente, tranqüila.


O cenário, preciso, conta apenas com o necessário para representar e contextualizar toda a poesia do texto. Mesa de jantar, vidro e tecidos – virando como páginas, de acordo com as cenas e o passar do tempo.


Dirigida por Ruy Cortez, Rosa de Vidro é uma peça que reflete sobre a dificuldade que é a comunicação humana num contexto em que não se fala de/para seres humanos, mas de/para aparências, abrangendo além de tudo uma crítica ao comportamento da sociedade burguesa norte-americana da época. Uma apresentação muito bem produzida e inteligente.

FICHA TÉCNICA Dramaturgia: João Fábio Cabral. Direção: Ruy Cortez. Elenco: Julia Bobrow, Victória Camargo, Tales Penteado e Ricardo Gelli. Iluminação: Fábio Retti. Sonoplastia: Aline Meyer. Figurinos: Benê Calistro. Assessoria de Imprensa: Adriana Monteiro. Programação Visual: Bruno Saggese. Arte do Cartaz: Luís Felipe Volpe. Produção Executiva: Mariana Goulart. Direção de Produção: Érica Teodoro.


SERVIÇO Espaço dos Satyros 1 (http://www.satyros.com.br). 10 a 26 de janeiro. Quintas-feiras, 21h. Sábados, 17h. R$20. 75 minutos. 14 anos.

Um comentário:

ju_bobrow disse...

Oi!
Muito legal o que escreveu sobre peça!
Beijos