segunda-feira

postagem de 17/3.


Manuel Bandeira por Cândido Portinari, 1931.

MADRIGAL MELANCÓLICO

O que eu adoro em ti
Não é a tua beleza
A beleza, é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que há nela de fragilidade e incerteza.

O que eu adoro em ti
Não é a tua inteligência
Mas é o espírito sutil,
Tão ágil, tão luminoso
- Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.

O que eu adoro em ti
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como teu próprio momento,
Graça que perturba e que satisfaz

O que eu adoro em ti
Não é a mãe que já perdi.
Não é a irmã que já perdi.
E nem meu pai.

O que eu adoro em tua natureza
Não é o profundo instinto matinal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que adoro em ti - lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.


Manuel Bandeira

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