domingo

LÍNGUA PRÓPRIA



Um silêncio que não é só da sala de cinema. Interno de cada um e de cada palavra de cada personagem do filme. Essa é a impressão número um. Silêncio que é de cumplicidade e, ao mesmo tempo, de identificação. Camila em silêncio na frente do computador. Atenta.

O filme Nome Próprio, de Murilo Salles, é bem resolvido nisso. Torna interno todos os gritos e excessos e a sensação que fica não é só da angústia, mas da dificuldade (ultimamente eu usaria a palavra incapacidade, mas achei meio cruel) que temos de compreensão e sintonia em qualquer tipo de relação que criamos.

Baseado nos livros Máquina de Pinball e Vida de Gato, de Clarah Averbuck, o enredo traz uma parte da vida de Camila, uma blogueira que pretende escrever um livro e usa, como matéria-prima de sua escrita, a própria vida, principalmente no que diz respeito aos relacionamentos amorosos. Revelando os erros e acertos, os problemas e as soluções – ou a falta delas, o mais bacana do filme é que a personagem principal não cai num rótulo de ‘garota-problema’ ou algo parecido, apresentando um mundo que, ela mesmo diz, está todo criado em sua cabeça.

A partir dessa ótica, então, Leandra Leal vive essa garota. E vive. Muito preparada e segura. Lindíssima.

Também está no filme, pulsando, a necessidade de amor, amor. Quer dizer, um amor que é traduzido, ali, como intensidade. Intensidade. O medo dela. A necessidade de. Como eu disse antes, o bom é que essa intensidade foi conquistada no filme através do silêncio, o que não deixou que a personagem se transformasse numa ‘garota problema’, e – como estou dizendo agora – da escuridão. Porque não há luz. É um filme nublado, névoa. As pessoas. Nubladas, névoas.

Não vou mais ficar falando porque eu me surpreendi muito. Li o Máquina de Pinball, gostei muito de umas partes, detestei outras, e pensava que esse filme ia ser meio bobo, meio sexo drogas e rockandroll e a menininha desesperada pra dar, até desrespeitando o livro. Chega.
E o filme é muito real, é humano. É aquele silêncio nosso de cada vida. Desesperado dentro.

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