terça-feira

UM ROMANCE B



Caio Fernando Abreu - Por Onde Andará Dulce Veiga? - Ediouro.

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Em 1990 Caio Fernando Abreu publicou o romance Onde andará Dulce Veiga – Um romance B e expôs ao público uma trama investigativa híbrida, unindo uma busca externa e – se for possível separar – a busca de si.

Começa assim: um jornalista sai à procura de Dulce Veiga, uma cantora popular que, vinte anos antes, havia sumido um dia antes de seu show mais importante deixando admiradores inconformados e saudosos. É então nessa busca que ele entra em contato com diversas personagens, extremamente imagéticas, marcantes, ora reais, ora imaginárias, espectros, que conduzem-no a sensações e pistas sobre destinos – de Dulce Veiga, da cidade, dele mesmo.

Nestas pistas há momentos de lirismo explosivo, e é por meio do contato com elas que a personagem principal mergulha em divagações e lembranças que a transportam da realidade fria e objetiva da investigação para a imaginação e sensações livres do sujeito. Realidade e mitologia se confundem e não é mais possível saber se o narrado é objetivo ou imaginário, a linha é tênue, como na vida, e o fato de o romance ser narrado em primeira pessoa, onisciente, dificulta ainda mais a distinção. Muitos são os ecos, as referências, as personagens e ações interrompidas. Inconclusões.

Além desse diálogo entre mitologia e realidade, presente em personagens como uma mãe de santo, uma jovem astróloga e outra religiosa, o romance b apresenta ecos da confusão do final dos anos 1980. A aids, a homossexualidade em discussão e a falta de esperança e fé revelam-se tanto em personagens quanto em acontecimentos, reconduzindo a personagem das atmosferas de sonho para a realidade propriamente dita. Talvez uma realidade mais que a realidade, porque é narrada, porque é uma realidade excluída e está sendo posta à mesa, escrita, descrita.

Curioso é reparar que são as personagens femininas que representam qualquer possibilidade, qualquer fio de esperança ao longo da trama. As personagens masculinas do romance estão sempre marginalizadas de alguma forma, caricatas e grosseiras, postas em xeque, enquanto as femininas sustentam uma dignidade e uma imagem imaculada mesmo passando, também elas, por situações abjetas.

Como cenário, a cidade de São Paulo. O centro dela, lugar que pode abarcar toda a variedade de tipos presentes no texto. Sujeira e barulho embaralhando, provocando a confusão dos sentidos, a náusea de ser tudo tão explícito.

Em suas cartas, Caio Fernando Abreu fala diversas vezes da necessidade da fé, da esperança. Sempre de uma forma poética e inteligente. Não é diferente no romance. A questão é complexa, não pode ser resumida, mas no fundo trata da importância que é a busca, os breves encontros, já que a vida não talvez não passe disso.

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