segunda-feira

Querido Peter (seu nome não é Peter)

Você e a doçura, velho tema, lembro bem. E vim responder. As coisas não vão nada bem, Peter.
Você sabe que eu não acredito nela, que pra mim é ingenuidade, fraqueza, jamais admiro, em ninguém, por favor, não venha você dizer que é questão de doçura. Pra mim isso é maior: questão de tempo, de como cada um vê o tempo – e, por consequência, como cada um vive o tempo. Se é de um jeito bom, bonito, aí sim, a pessoa é delicada e gentil, a pessoa só vê e quer fazer o bem, uma grande besteira – na minha opinião que tenho o tempo como a coisa mais assustadora que existe. Daí essa descrença e estupidez.
É, Peter, nada que se pegue ou se apreenda. Nem os ingênuos, nem os estúpidos conseguem, e por motivos exatamente contrários.

Divagações, meu bem.
Eu jamais escreveria isso pra alguém que não fosse você, morreria de vergonha.
E para responder ainda mais a sua ‘divagação’, exemplifico. E discordo e me desespero com essa visão que você fez de mim. Pois bem: vivi durante anos com um homem gentil. Ele era gentil, Peter, extremamente gentil. Nunca vi ninguém tão delicado, tão gentil, tão atencioso. Ele não tinha pressa de nada, Peter! Era gentil, ele jamais ficava bravo, irritado, triste, com nada. Via o tempo de um jeito bom, meio comparsa, ele aproveitava tudo... eu nunca entendi como esse homem pôde ficar comigo tanto tempo. Se bem que os últimos dois anos foram insuportáveis. Para mim. Ele jamais abriu a boca para conversar sobre ou demonstrar qualquer tipo de decepção e eu me culpava diariamente por desgraçar a vida daquele homem gentil.

Porque, pra mim, nunca nada fez muito sentido, sou incapaz de observar o que existe por trás dos resultados... as intenções. E então eu sou o juiz insuportável. De mim mesma, dos outros, de desconhecidos, de crianças e idosos, não importa.
E por isso nunca fui também de falar muito, o tempo apaga a palavra, e não a eterniza (isso depende do jeito de como se vê o tempo, claro).

Você me entende, Peter?

Aposto que não.

Mas o que eu posso te dizer além disso é que, depois de anos em nossa fonte seca, eu mandei aquele homem gentil embora, falei das culpas, do pânico que me dava. E ele foi. Gentilmente, se retirou. Ele foi tão gentil que sequer chorou, Peter. Você entende agora?
Enquanto eu estava jogada no chão, descabelada, gritando, soluçando, culpadíssima por mandar embora aquele homem gentil. Até hoje sorrio quando lembro da cena. E depois: sem dramatizar, sem dramatizar, eu nunca vou deixar de amar você, shhh, fica calma.

Jamais nos falamos do mesmo jeito. Hoje eu sei que ele vive com uma mulher tão gentil quanto ele. Ela é pura, Peter, ela é linda. Eles terão filhos, ela adora as crianças.
Queria muitos filhos, ele. Eu não.
Eu tinha medo de que nossos filhos nascessem defeituosos. Medo não, eu tinha certeza de que nasceriam defeituosos. Peter, ele jamais soube disso.
Foi embora, gentil.

E daí?
Eu me pergunto, e pergunto o mesmo pra você.

Me escreva.
Amo você, seu merdinha.

7 comentários:

Luciano Marra disse...

Belo dia vou entrar na livraria e comprar um romance povoado de gente estranha, de umas 200pp. Vou ler numa sentada, pedir um café e sentir um orgulho danado da criatura que escreveu.

Stelio de Carvalho Neto disse...

Intenções e resultados ... Sempre tão desproporcionais. Me faz lembrar uns versos de uma canção do Pulp: "it will not stop, it will get worse from day to day 'til you admit that you're a fuck up, like the rest of us."

Ana Cristina Joaquim disse...

Ah, quemassa, Ju. Vontade de conhecer o Peter, ouvir seus conselhos.

Anônimo disse...

bonito.

Zeh disse...

porra... muuuito bom!!!

Anônimo disse...

que bonito.

char disse...

drama e divagações!