quinta-feira

carta #3

Querido Peter (posso chamar assim?)

Antes de tudo peço desculpas por não esperar sua resposta e já mandar, assim sem mais, outra carta. Ousadia, sim, desculpa novamente, mas lembrei que faltou dizer uma série de coisas, ou não faltou nada e preciso dizer coisas novas, outras coisas, não sei bem.

Me sinto muito só. Não sei se é a mudança toda que aconteceu por aqui, não sei se isso vem de mim, mas estou sozinha, Peter. Tenho preguiça de falar com as pessoas, elas me olham de modo estranho, em geral.

Tem uma pessoa que me ama. Que eu amo profundamente. E nós nos divertimos muito, rimos e fazemos absolutamente nada, nós fazemos silêncio. Ele está do meu lado, Peter, é uma ligação bonita.

Mas isso não significa que a solidão acabou, me dói imaginar, tanto, precisei escrever de novo, para você, para contar, que eu mudei a minha vida novamente, mudei tudo, Peter. As pessoas que conheço, as pessoas que me cercam é que vivem, Peter. Têm sonhos, carreiras, nomes a zelar, algum prazer. Foram promovidas na empresa, algumas estão para se casar, outras terão filhos, outras deixarão o país – há até as que deixarão o país para se casar e ter filhos. Eu destruí tudo e não há nada de romântico aqui. Eu e a pessoa que me ama gostamos de cozinhar, isso é tudo.
Havia um projeto. Não consegui mais, mudei o projeto, eu destruí o antigo projeto. Vou saber se aquilo era o certo? Alguém sabe, Peter?

Me pergunto se é essa a condição humana... você ri que eu sei, estou desinformada para falar em condição humana: jovem, bela, cheia de recursos, uma baronesa, você diz, e dá tapinhas nas minhas costas. Choro com isso, você também sabe. Ainda mais agora, que tenho me comovido bastante. Bastante mesmo. Com palavras, por exemplo.

A palavra irremediável me faz chorar.
A palavra futuro me faz chorar.
A combinação entre as duas, irremediável futuro, me faz.

No mais, tenho lido muito. Indico a você O livro do riso e do esquecimento, do Kundera, aquele sem-vergonha. Você ia adorar a cena de Tamina nua com as crianças.

E, para me despedir, um poço da ironia pessoana, meu poema do dia.
Um beijo, homem.
Responda logo.

*

POEMA EM LINHA RETA
Álvaro de Campos

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

5 comentários:

Anônimo disse...

obrigado.

Anônimo disse...

Que coisa... ainda mais vindo de você, que defende com tanto amor seus sonhos...
Pra mim me pareceu uma carta de derrota, e eu sei que isso não é verdade. Os que sonham sonhos fáceis devem ter gostado (e alguns talvez até te agradeçam), porque sua aparente solidão e sua possível dor confortam os que somente anseiam e pouco se aprofundam em suas palavras. E todos somos sempre um pouco cruéis...
Eu também sei que você não acha que as pessoas que te cercam é que realmente vivem. Lá no seu íntimo você deve ter certeza absoluta que quem vive é você, e que os outros fingem que vivem, inebriados que estão de desejos às vezes tão medíocres... Você decerto duvida dos falsos projetos que se acumulam uns sobre os outros na vida dos que te deixaram sozinha. E a sua suposta solidão pareceu-me também falsa, pois aqueles que você diz que te amam antes de tudo são aqueles que você deve amar. E amar é muito mais importante que ser amado, sempre.
Enfim, te digo por fim que condição humana é inevitável a todos que são humanos, inclusive àqueles que você acredita terem sonhos - pois até os que se dizem sonhar também choram a solitude, escondidos em seus travesseiros...
Te desejo do fundo da minha alma que um dia a palavra futuro não a faça chorar, e sim que ela vá perdendo totalmente seu sentido e lhe seja por fim prazerosamente indiferente.
Boa cozinha para você, sucesso e alegria sempre!

Anônimo disse...

Me gusta mucho la ironía en todo esto

Anônimo disse...

solidão = leitores anônimos

Ana Cristina Joaquim disse...

belo, belo, tanto quanto pode uma certa tristeza ser.