quarta-feira

carta#4


Querido Peter,

Obrigada por sua resposta. Fez-me bem na época. Releio ainda. Ou então estou me sentindo bem e ela fez me sentir, apenas. Aí faz sol, aqui oscilamos. Tenho vontades de escrever coisas que jamais me passaram pela cabeça, Peter. Tenho coisas guardadas, com cara de golpe fatal. Ao menos, vejo elas assim. Faz-me bem ver assim. Tenho visto e isso é importante.

O que tenho visto? Luzes. Pequenos focos em cada espaço que corro. Existe uma pessoa muito perto e ela me dá coragem, uma estranha coragem, como Lóri, sabes do que estou falando? Peter, quero milhares de coisas novas aqui dentro. Resolvi assumir, acho. Assumo que preciso de silêncio e solidão, às vezes. Assumo que sou uma pessoa alegre com pequenas coisas, ranzinza para movimentos grandiosos. É tão bom se assumir indolente para movimentos grandiosos, uma alívio do grande peso, acho que me sentia triste por isso, por isso o vazio e a bagunça toda que me enfiei. Assim: não preciso de um movimento grandioso agora. E, quando precisar, não será uma necessidade, será um movimento grandioso porque sim. Um movimento e só. Ele deve ser tão natural que ninguém vai perceber, nem eu mesma.

Também é isso o que quero do meu amor. Não quero exigir movimentos grandiosos no meu amor, ele deve ser, pronto. Aquela história de ‘quero vivê-lo a cada vão momento’, e então as coisas mudariam ou se movimentariam delicadamente. Não quero sustos, Peter. E não quero assustar ninguém. Quero que meu amor se sinta amado, muito amado, e isso é (quase) tudo.

E as escritas, Peter. Tento redescobri-las. Sempre e sem cobranças, sim, o mesmo movimento do amor, risos. Não quero cair na ilusão da grande obra. Exijo. De mim, não dos outros. Exijo de mim, e não dos outros, a qualidade ou valor à obra. Falando obra soa tão burocrático e distante de mim. Resolvido, não há obra. Próxima questão.

Marina segura uma ovelha em cima do penhasco e a série se chama Back to Simplicity.

José e Pilar já está por aqui.

Acho que não devo dizer mais nada, estragaria a surpresa.

Escrevi apenas para dizer que a sua voz.

Para agradecer e aliviar você, também, que sempre se preocupa tanto.

Para dizer que até breve.

E para dizer que continuo reclusa, mas não de mim mesma.

E um beijo enorme.

3 comentários:

Claudia disse...

Muito muito bom, Ju. Mesmo

Gustavo disse...

Po, que foda isso.

Ana Cristina Joaquim disse...

Lindo demais, jubiloca!