sexta-feira

Peter, peter, peter,

(carta 5)

Lá venho eu, de novo. Demorei pra responder. Duas semanas para ler a sua carta e queria muito que você estivesse aqui, para ver a minha cara.

E agora, minha resposta pra você, que, claro, vai apenas responder a última pergunta da sua carta. Aquela pergunta que a gente faz meio por educação, mas que eu sei que não é o seu caso porque você é extremamente grosso e mal-educado.

Enfim, Peter, to mal, cara...

(ahahahahahahahauahauahauahauahaushaushaushaushaushaushaushaushaus!)

Sério.

Estava há pouco no telefone com uma pessoa, e sei que estou insuportavelmente reclamona, de modo que tudo o que eu falar vai ser uma reclamação, em menor ou maior grau, e que não, não mesmo, não estou vendo sentido em coisa alguma e, dessa vez, não estou conseguindo rir disso.

Bla bla bla. Assim: terminei a faculdade. Oh! Agora sou adulta e instruída, teoricamente capaz de fazer alguma coisa. Mas te digo: estou há umas quatro horas tentando preparar um texto sobre medicina e fiz apenas 3 páginas. Não me concentro, li até a Revista Tpm, risos, mas não terminei o bendito texto. Eu preciso saber qual é o meu lugar no mundo, homem. Eu preciso saber das coisas, eu preciso saber o mínimo de mim.

Porque: as pessoas têm objetivos. Uns dizem que querem ser isso e aquilo, fazem coisas para alcançarem, acreditam mesmo. Você não imagina o quanto eu invejo essas pessoas. Enquanto elas falam eu só escuto e observo, bem quieta, vendo se, pelo menos, consigo imitar suas expressões faciais na festinha.

Essa semana, fui tentar uma coisa. Fui falar com uma professora sobre uma ideia de mestrado. Acho que poucas vezes me senti tão imbecil na vida. Só faltou a professora dizer, em alto e bom som (e, o pior, com razão): Menina, você tem que escolher um caminho! E eu: ah...

Mas eu não vou desistir e vou me agarrar na poeta-argentina-louca-suicida. O máximo que pode acontecer é eu passar a odiá-la, mas isso está tão próximo da intimidade que sinto com ela.

Distraída demais. Não consigo escolher, Peter. Não consigo finalizar nada, nem minhas discussões de casal. Muito menos elas, porque não sei o que quero de um casal! E de nada mais, eu não sei o que quero das coisas que escrevo. Eu não frequento saraus porque tenho vontade de fazer aquele barulho de macaquinho toda vez que alguém aumenta a voz para dizer: ó!

Tenho dormido, como tenho dormido. Não muito – porque não sou de – mas deliciosamente. Sono pesadão, e fluido.

Já sei bem o que você vai me dizer: que é para eu não me afobar, que é para tentar ser menos ansiosa. Eu vou concordar, como faço com tudo o que você diz. E tem mais, vou até completar com uma frase do livro que estou lendo:

“um desses homens que atingem, aos vinte e um anos, tão grande e limitada excelência em alguma coisa que, depois, tudo em suas vidas cheira a anticlímax.”

É, é O Grande Gatsby. Quem me emprestou foi a pessoa mais linda que conheço, Peter. Você vai me dizer, então, para ouvi-lo. Eu digo que ouço, com ruídos – e a recíproca é verdadeira. Isso é coisa do amor, né, Peter, e é bom, porque a previsibilidade é perigosa. De modo que está tudo bem, uma vez mais, e posso te dizer que me sinto feliz nesse lugar.

E essa frase, do livro, é tão reconfortante. Você não acha?

Claro que é mais lindo escolher nomes literários para as coisas da vida. É, já estou delirando, tomei algumas,

Acho que é só isso que tenho pra contar, e que você já sabe que mensagens de superação me deixam mais deprimida que os fatos em si. Então, não me escreva nada do gênero, nem de brincadeira.

Tenho muitas saudades.

Não tenho saudades.

Espero que estejas bem, com a sua princesa do norte (que apelido bizarro que você deu pra ela, hã), tomando muita cachaça e com aquela barriga dura de velho, que vou beijar e abraçar feito louca quando você aparecer na minha porta.

2 comentários:

Silvério Bittencourt disse...

Pfff, não consigo escrever cartas, mas eu falaria algo assim. Menos a parte do abraçar e beijar feito louca uma barriga dura de velho e do
"terminei a faculdade"! Nem comecei

Abraço

Bruno Akimoto disse...

Fantástico! Estou sem palavras... parabéns!