terça-feira

bom mesmo é receber um retorno desses
tão bom que pedi pra publicar
obrigada, Renan

"1 de dezembro de 2011 04:13

Juliana, o Brevida é muito muito foda! formidável (de forma).

Crianço, cabeça-de-piá com o pau-na-mão, parece um Macunaíma mais fudido (sem aquele drible fácil que salva o dia mas não impede o final trágico). mais triste. como aquela imagem do Nelson Provazi, verdadeira capa do livro desfigurada em tintas fortes (e por isso tão real).

Brevida não é apenas uma ótima estreia, é uma abertura enorme de novas possibilidades de escrita. você consegue apreender muitas demandas – não apenas literárias: refletir sobre o Brasil (refletindo, por sua vez, o mundo) sem restrição estética; compreender a infantilização terrível em curso; incorporar as estruturas de linguagem corrente (esse, sim, o verdadeiro prosaismo contra tanta falação sem tutato); explodir de verdade os gêneros que ainda, em alguma medida, permitem uma pré-catalogação dos textos, etc.

é como se você pegasse várias pontas do debate cultural mas torcesse um nó. era tão óbvio! mas ninguém fez (até agora). penso em obras como Cidade de Deus com seu realismo, digamos, mais clássico e todo uma tendência de prosa "de violência" altamente lucrativa para editoras e produtores de cinema. penso também em uma produção fechada em si, com uma acuidade que pode beirar o maneirismo, mas que tem sua força e importância num mundo cada vez mais relaxado (aqui no mau sentido); penso também num grupo que discute a citação, o copyright, a autoria e propõe avanços na própria configuração do que é literatura. penso ainda em outras coisas (de Sérgio Bianchi a Kafka) e como tudo é importante e como era preciso reprocessar tudo, avançando criticamente, pra mostrar a vida atrás da casca dura e seca. penso, sobretudo, como Brevida contém isso e muito mais!

as construções finas, com várias camadas de espelhamento
"OOOOOOlha sóóóóóó"
(com 6 Ós pra lá e pra cá);
as palavras da assistente e da entrevistadora;
a própria estrutura de uma entrevista pra Assistência Social e Caras;
etc

estou escrevendo de enxurrada (queria escrever antes e mais).

sua Solange Nagib, por exemplo, me entusiasmou também. alguém precisava pegar essa personagem e colocá-la no centro da trama (como o Machado de Assis fixando seu interesse naquilo que em Alencar era secundário) e seu marido corno e rico no devido lugar! reproduzindo estruturalmente a encenação de Caras para mostrar o ridículo em seus próprios termos.

quero, aliás, mostrar uma tentativa de romance que estou elaborando. chama-se Esculacho. senti-me muito influenciado pelo Brevida embora não o tivesse lido ainda (o que chamo de Zeitgeist!). claro, não tenho sua desenvoltura para um texto tão complexo. na verdade, o meu é muito rudimentar (por vários motivos: ainda está muito cru, fico preso em alguns parâmetros esclerosados, exponho demais as arestas) mas gostaria que você lesse quando puder.

espero que o e-mail não tenha ficado muito confuso."

Renan Nuernberger