quarta-feira


Quem pegar essa nota




Há alguns meses ganhei uma nota que ainda guardo comigo. Não por economia, mas porque ela trazia uma mensagem: “Jonas amo vc meu lindo”. E no verso (ou frente ou cara/coroa): “Quem pegar essa nota vai estar feliz no amor”. Passar a nota adiante seria ignorar todo o poder do destino e do acaso, e por isso eu, romântica aguda e incurável, pendurei os 2 reais no mural, para guardar só pra mim, e pra sempre, a felicidade no amor.

Fiquei pensando se Jonas, o destinatário, chegou a pegar a nota. Se ele recebeu a nota de quem escreveu nela e passou adiante ou se o/a remetente simplesmente deixou a mensagem na nota e a entregou na primeira banca de jornal em troca de chicletes, confiando que o poder do destino e do acaso faria a nota chegar às mãos desavisadas de Jonas.

Ou então Jonas, homem casado, recebeu em mãos a nota do/da remetente, mas não pôde guardá-la na carteira, pois corria o risco de entregá-la, sem querer, para sua esposa ir à feira, e assim ser pego no pulo e provocar a ira insana da mulher traída. Nesse caso, também agiu com esperteza: pegou a nota e comprou um bombom para a esposa no camelô que fica no ponto de ônibus. Todos felizes: o/a remetente, que declarou seu amor; Jonas, que recebeu a declaração, e a esposa, que ganhou um bombom, carinho e atenção que Jonas há muito não demonstrava.

É curioso o que uma nota de 2 reais pode fazer. Comprar chicletes, bombons, servir de papel de carta e levar declarações, e, claro, ser responsável pela felicidade de uma pessoa no amor. Desde que recebi a nota vejo ela estática no mural, agitando sua mensagem de felicidade, e sorrio. Mas ontem comecei a pensar em compartilhar a felicidade no amor que essa nota de 2 reais me promete.

Pensei que posso ser um obstáculo para a nota chegar de volta a Jonas – se fosse essa a primeira intenção do/da remetente, e que assim não permitirei que Jonas saiba que é amado. Ou então, mais grave, posso estar segurando uma grande sorte exclusivamente para mim, sendo que estou feliz no amor e, bem, só preciso de sorte no jogo, enquanto milhares de pessoas sofrem e choram por seus amores, infelicíssimas. O nome disso é egoísmo.

Outra coisa que me chamou atenção na mensagem foram os verbos: “vai estar feliz”. A escolha desses verbos soa bastante sábia, já que ser feliz no amor é deveras complicado, mas estar feliz no amor... acontece. Ou, nada disso, essa escolha pode ter sido uma simples questão de oralidade, já que nosso novo vício de gerundiar pode gerar, imediatamente, uma construção como: “vai estar felizando no amor”. Mas essa é outra reflexão, mais técnica, que não passa pela ficção.

Felizando ou não, resolvi que vou passar minha nota adiante. Ela já ficou alguns meses aqui paradinha no mural, e agora é hora de deixar o amor partir, para ele voltar pra alguém. Hoje mesmo vou juntar essa nota de 2 reais com uma moeda de um, e comprar um bilhete do metrô em greve.


Um comentário:

Sabrina Andrade disse...

Que linda essa crônica, moça ♥