sábado

Diário das cartas – já se passaram algumas semanas, talvez meses





Página um

O projeto das cartas está recomeçando. Ele ganhou um edital, junto com as Iaras, e vai sair em uma coleção de poesia no ano que vem. O que estava meio de lado, totalmente no plano dos planos, vai começar a se mexer. Como fazê-lo se mexer? Como tirá-lo do plano dos planos?

O processo já começou meio difícil porque eu, juliana, tenho receio de incomodar as pessoas. Sempre tenho. Faço rodeios demais quando preciso pedir algo, e desta vez não foi diferente. Mas a partir de agora tenho de contar com todo mundo que quiser e puder me ajudar. Então comecei selecionando algumas pessoas conhecidas, de diferentes perfis, e escrevi a todas elas contando do projeto, da velha ideia nova. Algumas pessoas se empolgaram e logo mandaram diversas cartas, muitos materiais. Outras pessoas simplesmente abandonaram a conversa. Outras ainda se empolgaram bastante e disseram-se dispostas a ajudar, mas não foram adiante.

E estando totalmente dependente desses feedbacks tive de ignorar uma série de questões mais “pessoais”, mais profundas, e me ater ao essencial. Quem quiser compartilhar, quem quiser abrir isso para mim, dividir isso comigo, que venha.

Digo isso porque, ao receber alguns textos desses, pessoais, tão íntimos, comecei a me sentir uma intrusa, uma pessoa ousada demais, sem limites de aproximação. Assim: “Juliana, onde já se viu sair pedindo para as pessoas lhe enviarem cartas? Que direito você acha que tem de abrir essas caixas, esses baús, gavetas, alheios?”. E eu mesma respondia: “Juliana, você não tem o direito de fazer isso”.

Mas aí conversando com pessoas sobre o assunto, muitas me ajudaram a perceber que é bem simples. Quem quiser, manda. O projeto precisa começar a acontecer. E é um livro. E definitivamente NÃO depende só de mim, o que representa um desafio enorme e novo entre todos os outros processos que passei.

Essa é a primeira página do diário que vou começar a registrar aqui para contar do processo do livro. Gosto de pensar e registrar processos, e no meio de tanta gente abrindo um pouco da vida para mim, acho que o mínimo que posso fazer é abrir a minha.


*


E já vou começar a página dois, porque essa semana aconteceu algo inesperado. Uma pessoa para quem eu tinha mandado a mensagem das cartas me escreveu, perguntando se eu ainda precisava delas. Respondi que CLARO (não recebi a enxurrada de cartas que imaginava receber  num primeiro momento). Fomos tomar um suco (dia muito quente para um café) para que essa pessoa me entregar as cartas, e fiquei surpresa e sem reação quando ela tirou da mochila um pacote grande, cheio delas. “Fique com todas, e depois faça o que quiser. Não preciso mais.”

Arregalei os olhos e disse que eu iria guardar as cartas para sempre, porque essa pessoa poderia querer as cartas de volta, arrependendo-se de ter deixado tudo nas mãos de uma pessoa qualquer. Disse isso e mais: “Eu mesma joguei fora quase todas as minhas cartas, QUASE TODAS, e me arrependo imensamente de não ter esses textos comigo”. A pessoa insistiu, e eu disse que tudo bem (mas nunca vou jogar as suas cartas fora, saiba).

De início me senti muito feliz, porque chegara às minhas mãos mais um material superestimulante para começar. Mas depois me senti mal. Aquele pensamento de parágrafos atrás voltou. “Quem você acha que é para ficar vasculhando assim na vida alheia?” Mas aí a resposta veio rápida, papo encerrado: “eu sou alguém que pediu licença e teve permissão”.

Aproveito para agradecer a generosidade de todos que mandaram suas cartas. Por confiarem em mim, meio-que cegamente. Por dividir.

(Aproveito para reiterar que AINDA estou recebendo cartas de quem quiser mandar.)


*


E já emendo a página três do diário, porque comecei a ler nesta noite o material que recebi desde que comecei a busca.

Quando comecei a ir atrás do material, disse que poderia ser QUALQUER carta, com QUALQUER tema. Sabia que muitas delas seriam de amor. Afinal, todas as cartas de amor são. Chegaram por aqui alguns textos lindos, singelos, em que as pessoas expressam sentimentos bonitos, grandiosos. E nessa terceira “página” devo dizer que é emocionante ver o quanto as pessoas podem ser carinhosas entre si, e dedicarem palavras lindas umas às outras. Por mais que pareça clichê essa frase, e por mais que, óbvio, as pessoas tenham esses sentimentos lindos, vivam sentimentos “sublimes”. Enfim, como é bonito ver a expressão disso, esses verdadeiros encontros. Uma fé.












4 comentários:

Carla Oliveira disse...

Oi, Juliana! Eu gostaria de mandar. Como faço? Você precisa dela escrita mesmo, ou pode vir em forma de e-mail? Desculpe-me mas eu não acompanhei o projeto desde o início... Já tive vontade de fazer algo parecido, mas fui detida pela preguiça. Por isso é uma forma de realizar o meu. Beijos!

juliana amato disse...

Carla!
que legal. pode mandar , sim!
me deixa aqui seu email e eu te mando o "pedido formal", com detalhes e tal?
beijos, obrigada"

juliana amato disse...

carla, pode passar seu email pra mim no meu email mesmo: jujamato@gmail.com

Carla Oliveira disse...

Oba! Vou mandar! bjs