quarta-feira




E quando resolvi para mim mesma, ontem, dia 14 de janeiro, que começaria a pensar com dedicação no livro de poemas sobre cartas, abri na página que havia parado a minha leitura de Reparação. Há outros dados nesse contexto: nesse mesmo dia eu reuni e imprimi tudo o que havia coletado e recebido até então, de amigos, colegas e desconhecidos, para ter ideia do que tinha nas mãos antes de começar. Fiquei um pouco desesperada ao perceber que não era muita coisa, e mais desesperada ainda ao perceber que era pouca coisa. Minha “campanha” atrás de cartas alheias não fora tão efetiva, isso eu sei, e o resultado foi um montinho pífio, camuflado pela grandeza de cada linha de cada carta, que cada pessoa resolveu abrir para mim. Para ser objetiva: apesar de ter um material bom, ele ainda é pouco.

Deixei tudo em cima da escrivaninha, peguei meu exemplar de Prezada senhora, prezado senhor (ou vice-versa, não lembro agora), fui pra cozinha fumar um cigarro (não gosto de fumar no quarto) e tentar me acalmar e pensar em uma solução. Pedir mais cartas para as pessoas? Talvez não seja o caso, já que tenho pressa e que definitivamente não consigo fazer esse pedido com objetividade e sem rodeios, pois ainda acho que é pedir muito a alguém. Outra solução seria escrever poemas sobre as cartas, poemas mais “contextuais”, e não um poema a partir de uma carta, assim, pontual. Desisti de pensar naquela hora, achando que essa solução apareceria – e aparecerá – se eu ignorasse o problema.

E então resolvi ler um pouco do Reparação, do Ian Mcewan, leitura que comecei nas férias e ainda não tinha avançado muito. Peguei o exemplar e sentei na cozinha para ler. Abri na 69, a página marcada, e me deparei com isto:



Apesar disso, quando colocou uma folha de papel na máquina de escrever não esqueceu o papel carbono. Pôs a data, a saudação, e logo deu início a um pedido de desculpas por ter agido “de modo desajeitado e estouvado”. Então parou. Deveria demonstrar algum sentimento? Nesse caso, em que nível?

“Se isso servir de desculpa, foi só recentemente que me dei conta de que fico um pouco atordoado na sua presença. Nunca antes entrei descalço na casa de uma pessoa. Só pode ser o calor!”

Como parecia superficial aquela frivolidade protetora. Ele parecia um tuberculoso fingindo que está apenas resfriado. Deu duas linhas em branco e reescreveu: “Sei que como desculpa é insuficiente, mas nos últimos tempos percebo que fico um pouco atordoado na sua presença. Que ideia foi essa a minha, de entrar descalço na sua casa? E quando foi que eu quebrei a beira de um vaso antigo antes?”. Repousou as mãos no teclado enquanto enfrentava o impulso de datilografar o nome dela outra vez. “Cee, acho que não é culpa do calor!” Agora o tom de humor fora substituído pelo melodrama, ou pelo queixume. As perguntas retóricas tinham algo de repulsivo; o ponto de exclamação era o primeiro recurso daqueles que gritam para se exprimir com mais clareza. Ele só perdoava essa pontuação nas cartas de sua mãe, onde cinco exclamações enfileiradas indicavam uma piada das boas. Ele girou o tambor da máquina e datilografou um “x”. “Cee, acho que a culpa não é do calor.” Agora o humor desaparecera, e um toque de autocomiseração se insinuara. Seria necessário recolocar o ponto de exclamação. Claramente, a função do tal ponto não era apenas a de aumentar o volume.

Robbie ficou mais quinze minutos mexendo no rascunho e por fim colocou folhas em branco na máquina e passou-o a limpo. As linhas cruciais ficaram assim: “Você poderia pensar que enlouqueci – por entrar na sua casa descalço, ou por quebrar seu vaso antigo. A verdade é que me sinto um pouco tonto e aparvalhado na sua presença, Cee, e acho que a culpa não é do calor! Você me perdoa? Robbie”. Então, após alguns momentos de devaneio, com a cadeira inclinada para trás, em que ficou a pensar na página em que sua Anatomia tendia a se abrir nos últimos dias, recolocou a cadeira no lugar e, antes que conseguisse se conter, datilografou: “Em meus sonhos, beijo tua boceta, tua boceta úmida. Em meus pensamentos, passo o dia inteiro fazendo amor contigo”.

Pronto – estragara tudo. A carta estava estragada. Tirou a folha da máquina, colocou-a de lado e escreveu sua carta a mão, certo de que o toque pessoal era adequado à ocasião. Consultou o relógio e se lembrou de que antes de sair devia engraxar os sapatos. Levantou da cadeira com cuidado para não dar uma cabeçada no caibro.



Um lado mais sensível meu, sorrindo, diz que só pode ser um sinal.



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