quinta-feira

Comentário e trechos de um livro, de um livro de cartas




tinha passado pela autora italiana Natalia Ginzburg de relance, apenas nos olhamos, e eu sabia que o livro dela era parte daquela coleção da editora cosac naify, de capa dura, só com livros de autoras. Ginzburg. Ginzburg em letras grandes e brancas num fundo verdescuro.

aí um belo dia eu estava contando para o meu colega aqui do trabalho sobre o projeto das cartas (percebi que, cada vez que falo nele, falo uma coisa diferente, e isso vale uma postagem também), e ele me indicou caro michele, um romance dela. como estou devorando tudo o que me dizem que pode servir de referência (ainda falta o her, Bobby e Lueba), comprei online na mesma hora, o livro chegou dois dias depois e já comecei a ler.

é um livro impressionante. o narrador são múltiplos “eus”, integrantes de uma família dispersa, que se expressam através de cartas entre si. poucos são os momentos de descrições ou ações propriamente ditas, e ficamos conhecendo a vida de cada um pelas palavras que eles mesmos manifestam. é da mesma forma que percorremos os cenários e características dos personagens, por suas próprias palavras.

nesse livro pouco importa, portanto, a ação. o importante é a relação que cada personagem tem com o outro, estabelecida por lembranças de um passado familiar conturbado que conduziu cada um a um universo particular, solitário, ricamente explorado pela autora e revelado ao leitor, não sem ironia, um pouco de angústia e melancolia.

e a angústia e melancolia a que me refiro acima vêm da verborragia de certos personagens, e do silêncio contido de outros. é incrível como a autora conseguiu desenvolver nessas cartas vozes tão particulares, tão firmes em seus propósitos e em seus papéis na história, nada vacilantes. e é curioso ver as reflexões de cada um, moldadas por suas personalidades, apenas exprimíveis por meio de cartas, porque são tão duras e reveladoras por vezes.

aí entra o meu interesse: como certas coisas podem ser ditas apenas por cartas. tudo bem, a maioria delas são correspondências a alguém longe e ausente, e por isso não seria possível uma conversa. mas será que certas coisas seriam ditas em uma conversa? a carta, portanto, pode ser um espaço de reflexão, a carta tem esse tempo, a espera. ela exige elaboração.

também, não fossem as cartas a opção da autora para narrar o romance, seria difícil exprimir a solidão dolorida de cada personagem – esse, para mim, é o principal tema do livro –, mesmo tratando-se de um núcleo familiar com os respectivos núcleos. cada pessoa como uma ilha, e as palavras tentam alcançar a outra ilha.

é um livro muito sensível, uma narrativa surpreendente. separei alguns trechos de que gostei muito, e vou colocá-los aqui, para não esquecer.   


p. 44
de Adriana para Michele
“Não sei explicar por que me sinto mais sozinha desde que morreu. Talvez porque tivéssemos lembranças em comum. Éramos os únicos no mundo a ter essas lembranças. Não costumávamos falar delas quando nos encontrávamos. Porém, percebo agora que não era necessário falar. Elas estavam presentes nas horas que passávamos no café Canova e eu achava opressivas e intermináveis. Não eram lembranças felizes porque eu e seu pai nunca fomos muito felizes juntos. E mesmo que tenhamos sido felizes por breves e raros momentos, tudo depois foi emporcalhado, pisado e revolvido. Mas não se amam apenas lembranças felizes. A certa altura da vida, percebe-se que se amam as lembranças.”

p. 47
de Adriana para Michele
“Talvez uma mãe não devesse dizer essas coisas a um filho, porque não são educativas. Mas a questão é que não se sabe mais o que é educação e se realmente existe. Eu não o eduquei. Não estava presente, como ia educá-lo? Eu só o via em Villa Borghese algumas vezes depois do almoço. Com certeza, seu pai não o educava, pois tinha enfiado na cabeça que você já era educado de nascença. De modo que você não foi educado por ninguém. Você cresceu muito abobado, mas não tenho certeza de que seria menos bobo se tivesse recebido de nós educação. As suas irmãs talvez sejam menos bobas que você. Mas elas também são muito estranhas e abobadas, uma por um lado, a outra por outro. Tampouco são ou foram educadas por mim, pois com muita frequência eu me sentia e me sinto uma pessoa com a qual não simpatizo. Para educar alguém é preciso ter em relação a si mesmo pelo menos um pouco de confiança e simpatia.”


p. 48
de Adriana para Michele
“Não lembro quando e como eu e seu pai deixamos de nos odiar. Uma vez ele me deu um tapa no escritório do advogado. Foi tamanho tapa que me saiu muito sangue do nariz. Estava lá também o primo dele, Lillino, e ele e o advogado fizeram-me deitar no sofá e Lillino desceu à farmácia para comprar algodão hemostático. Seu pai trancou-se no banheiro e não saía mais. Tem medo de sangue e sentira-se muito mal. Vajo que escrevi “tem medo” no presente, sempre esqueço que seu pai morreu. Lillino e o advogado batiam no banheiro e sacudiam a porta. Saiu pálido e com os cabelos gotejantes de água, porque tinha metido a cabeça debaixo da torneira. Quando me lembro dessa cena, tenho vontade de rir. Muitas vezes sentia vontade de recordá-la com seu pai para rirmos juntos. Mas nossas relações estavam embalsamadas. Não éramos mais capazes de rir juntos. Tenho a impressão de que depois daquele tapa ele deixou de me odiar. Não queria que eu fosse à Via San Sebastianello, mas às vezes era ele que o acompanhava a Villa Borghese no lugar da cozinheira. Eu também deixei de odiá-lo. Uma vez em Villa Borghese brincamos de cabra-cega com vocês no gramado, eu caí no chão e ele limpou a lama do meu vestido com o seu lenço. Enquanto estava inclinado, limpando a lama, eu via a cabeça dele com as longas madeixas pretas e entendi que entre nós dois não existia mais nem sombra de ódio. Foi um momento de felicidade. Era uma felicidade feita de nada, porque eu sabia muito bem que, mesmo sem ódio, minhas relações com seu pai permaneceriam algo vil e miserável. Porém, lembro que o sol estava se pondo, havia belas nuvens vermelhas sobre a cidade e depois de tanto tempo eu estava quase tranquila e quase feliz.”


p. 70
de Mara para Michele
“Senti muita pena de você daquela vez que tínhamos um encontro e você chegou correndo, pálido, pálido, e disse que tinha atropelado uma freira. Depois, no porão, disse que ela tinha morrido. Estava com a cabeça enterrada no travesseiro, e eu o consolava. Mas, na manhã seguinte, você não falava mais comigo e, quando eu acariciava seus cabelos, fazia aquele som gutural e desviava a cabeça. Você tem um gênio péssimo, mas não é por isso que não quero casar com você. Não quero porque daquela vez e de muitas outras vezes senti pena de você, e eu gostaria de me casar com um homem que nunca me fizesse sentir pena dele, pois já sinto muita de mim mesma. Gostaria de me casar com um homem que me fizesse inveja.



Escreverei de vez em quando. Um abraço,”


Nenhum comentário: