quarta-feira

três páginas de carta viram uma página de word





recebi algumas cartas que não dava para imprimir, por saírem ruins no scanner ou por estarem fotografadas – o que dificulta bastante a leitura na impressão. precisei redigitá-las para poder imprimir e carregar comigo e ler e rabiscar e recriar (coisas que ainda não fiz efetivamente).

quando percebi que as cartas digitadas não ocupavam nem metade do tamanho das cartas escritas à mão, achei curioso. é óbvio que as cartas digitadas sairiam menores, mais “condensadas”. sabemos. mas a reflexão que veio depois é que me deixou com vontade de escrever este texto.

pensei como a caligrafia também contém o tom da pessoa, a intenção, o peso da mão, o que a pessoa queria transmitir, sua personalidade, talvez. isso também é óbvio. lembro que uma vez fui fazer uma entrevista de emprego e tive de fazer uma redação “de próprio punho”, que seria analisada por uma especialista em caligrafias. amei. infelizmente, não soube meu diagnóstico completo, mas o pouco que me disseram me impressionou bastante.

voltando às cartas: a caligrafia. vi várias diferentes, muito diversas entre si, e muitas maneiras de escrever (linha ascendente, linha descendente, por exemplo). porém, quando coloquei essas cartas no word, foi muito chateante não poder colocar os outros detalhes – pingos expressivos nos “is”, voltinha na perna do “a” maiúsculo. pequenos desenhos. palavras tachadas. só consegui manter erros ortográficos porque desativei o corretor do word. sem falar que elas ficaram pequenininhas pequenininhas.

aí comecei a pensar de novo no computador, essa maravilha de meu deus. pensei em como ele condensa, simplifica, padroniza. em como a gente perde muita coisa com ele, muitas coisas sutis, que provavelmente nem nos dávamos conta de reparar quando recebíamos as nossas cartas. pelo menos eu não lembro nunca de ter pensado “nossa, que ‘r’ mais imponente”, “esse ‘ç’ tá meio caído”, ou “esse ‘a’ é a própria cara da satisfação” na época em que trocava cartas.

e agora me veio na cabeça que as letras no word, além de padronizarem o texto, deixam ele mais... sóbrio. e inexpressivo, pois sua forma não sugere nada. a não ser, é claro, se for escrito em comic sans – o que tira a credibilidade do texto e de seu autor instantaneamente. mas como decifrar de primeira uma arial, uma trebuchet? calibri? times new roman?

vim aqui jogar um pouco de conversa fora sobre esse lance das letras e pensar alto que possivelmente, logo mais, a caligrafia vai entrar em extinção. a particularidade de cada um vai ficar reservada às impressões digitais, e talvez nem o texto seja mais necessário para nos comunicarmos. black mirror feelings.





Nenhum comentário: